Com licença

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image002Pensamentos não faltam, a esta altura da vida. E algumas reflexões, que aqui relato, pedindo licença, cheia de dedos. Certamente já ouviram esta expressão. “Cheio de dedos”. É quando vamos com cuidado, quando hesitamos e temos alguma insegurança.

Creio que nem todos estão plenos de suas certezas. Li por aí que elas podem ser mais perigosas que nossas dúvidas. E agora, José?

Em toda parte, damos com o mesmo lema: é preciso ser feliz. Há uma multidão em busca da felicidade. O sucesso é ser feliz, título de livro. Ninguém encontrará um lugar digno neste mundo de Deus, se não for por meio da felicidade. É uma imposição quase brutal.

Mas em nome desta pobre felicidade, o que se tem feito! O que é ser feliz? Proponho aqui a filosófica pergunta para que o leitor pense nela antes de dormir. Ou ao longo do dia, enquanto trabalha, dirige, almoça, toma banho e janta.

E o futuro? Seria um mero blefe? Cheguei à conclusão de que o futuro não existe. E se existir, terá, ao menos, uma poltrona boa, um banheiro cheiroso, uma rosa num jardim? Quando ouço a expressão “país do futuro”, tenho um treco.

As pessoas se matam de trabalhar, poupando para o futuro. E aí, ele demora que só vendo. Quase sempre, quem trabalhou uma vida inteira se aposenta e começa a passar por dificuldades. E até privações. Este é o futuro que espera os aposentados?

Não raro, quando se está quase lá, tocando o futuro sonhado, vem o enfarte e puft. O futuro tem um verbo de tempo perfeito, no infinitivo: morrer.

Ah, não. A vida deve ser bem mais que isso. A vida é bonita demais para acabar assim, num futuro qualquer. Há de haver, como canta o “Rei”, além do horizonte, um lugar bonito pra viver em paz.

Clarice Lispector dizia que estava habituada a uma vida difícil e que uma vida fácil a deixava desnorteada. Clarice escreveu numa carta: “Não pense que a pessoa tem tanta força assim, a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso: nunca se sabe qual é o defeito que sustenta o nosso edifício inteiro”.

Sabe, se você quer chorar, chore. Se você tem motivos para rir, ria. Dizem que rir é o melhor remédio. Não faça como aquele jovem que, nos anos 70, criticou Hebe Camargo porque ela ria demais na tevê, num momento em que o mundo assistia ao drama da guerra no Vietnã. Hebe perguntou no ar: “Moço, se eu parar de rir a guerra acaba?”.

Aquecimento global. Emissões de carbono. Efeito estufa. As cúpulas discutem, enquanto a Terra treme, o fogo arde, o mar avança e os rios transbordam. Até mini-tornados passam pertinho de nós. Quem se dispõe a uma palavra de sabedoria e bom senso? Ah, se o mundo tivesse um síndico, daqueles bem enérgicos e insuportáveis…

Vi na tevê a entrevista com um renomado climatologista. Ele quase apostou que, em vez do propalado aquecimento, poderemos ter um futuro resfriamento da Terra. E que os próximos invernos serão bem rigorosos.

Agradeço a licença concedida, a permissão de perambular pelos temas, enxerida, pelos arremedos de ousadia, assim, meio sem jeito e arredia, como quem não quer nada. Obrigada.

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