Comentando

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O grosso da imprensa brasileira muito tem falado em crise, e que vai piorar. Falam tanto que desanimam todo mundo. Falam o que querem e não fundamentam nada, deixando no ar quem quer mais elementos para formar juízo próprio. Fazem parte do problema não da solução. Se não enxergam nada de positivo e esperançoso num país grandioso como este o que fazem atrás de um microfone? O que conseguem é abalar o moral do trabalhador a fim de que se cale, se conforme e aceite salários menores. Desde criança ouço falar em crise e o Brasil só tem crescido, graças aos pequenos. São eles que empregam e geram renda. Enquanto grandes reclamam eles trabalham, se arriscam e acreditam. Os donos da uma padaria do meu bairro construíram outra. Grande e chique. Está bombando. Mais 30 novos empregos foram abertos. A padaria valorizou o bairro e elevou a autoestima dos moradores. “O navio do Brasil não está afundando e o futuro será formidável”. (Bill Clinton. Folha 15.11.15). Não são os grandes empreendimentos, mas os pequenos que fazem o país crescer. Os impostos e benefícios que a relapsa Mineradora SAMARCO trouxe para Mariana-MG durante décadas, por exemplo, virou lama num só dia. O mal que ela causou é impagável. “Tal é o destino do ganancioso: a cobiça acaba com o cobiçoso”. (Pv 1, 19).

Li num jornal local que foi instalada a 4ª Vara Criminal de Piracicaba porque o serviço aumentou e apenas três varas criminais tornaram-se insuficientes para atender a demanda. Pretende-se atacar o maior problema da Justiça em nosso país, que é a morosidade devido ao número excessivo de processos, falta de juízes e funcionários, etc. Muito bem. Entendo nada de Vara, porém, esse fato faz pensar. Demonstra sermos um povo que ainda não sabe dialogar e resolver conflitos de forma racional e pacífica, como convém numa sociedade civilizada. “Se alguém fez alguma acusação contra você, procure logo entrar em acordo com ele, enquanto estão a caminho do tribunal…”. (Mt 5, 25). Estamos vendo judicialização de quase tudo, desde questões exclusivas do Executivo e Legislativo até briga de vizinho. Em geral, a Justiça vê a árvore e não a floresta. Tanto que muitas vezes direitos individuais se sobrepõem aos coletivos, e quanto mais dela dependermos, menos sensatos e assertivos seremos. A justiça é lenta sim como um paquiderme, sobrecarregada que está com nossas pendengas porque nos falta bom senso e por causa da mania que temos de querer levar vantagem em tudo.

Encerrando, li na Folha que índios Xavantes do Mato Grosso trocaram dieta tradicional (mandioca, abóbora, batata-doce, gafanhoto assado, formigas e larvas) por refrigerante e comida industrializada.  Com isso, 28,7% deles desenvolveram diabetes e mais da metade apresentam sobrepeso. Quando chegaram ao MT em 1957 eram delgados, magros e fortes. Entre 1980 e 90 chegou o refrigerante. Em 2000 o governo já enviava cestas básicas com goiabada, açúcar, macarrão, farinha. Aposentadoria a e Bolsa Família facilitaram acesso à cidade e a comida industrial. A preferência é Coca-Cola, mas, por ser cara, recorrem a marcas mais baratas. “Nossa força já não existe mais como antes” diz Domingos Mahoro, 58 anos, cacique, cuja mulher morreu de diabetes. “O refrigerantes é uma novidade que veio do céu, é um artificial tão gostoso”. (Paulo Rawe, xavante, com diabetes há dois anos). Mais. Quase 1/3 dos bebês brancos de até dois anos tomam refrigerantes. Mais de 60% comem bolachas, e bolos, mostra pesquisa IBGE. O excesso de consumo desses produtos pode levar ao diabetes. A coisa é tão séria que até as onças-pintadas do zoológico daqui entraram em dieta por estarem 30% acima do peso. Achamos um jeito mais sutil para acabar de vez com os índios: nossa comida. Come-se o que é gostoso e prático, não o que é bom. Come-se qualquer coisa em qualquer lugar. Come-se para encher a pança e tapar o buraco sem fundo que a falta de sentido para a vida faz na alma. Por isso somos cada vez mais obesos e infelizes.

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