Danos Irreversíveis

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22abr2013---pescador-procura-por-peixes-em-rede-com-navio-petroleiro-ao-fundo-no-porto-de-duba-na-arabia-saudita-1366666094520_956x500Em conversa com um amigo que tem banca no Varejão Central, uma beleza de pessoa, diga-se de passagem, me dizia que os permissionários foram chamados pelo Ministério do Trabalho para uma palestra sobre trabalho infantil. Segundo ele, ficou claro no encontro que trabalho infantil provoca na criança danos irreversíveis.

Estavam na roda alguns sessentões, que riram muito já que trabalharam na infância e ninguém apresentava os tais danos. Eu, depois de tirar o diploma – como se falava quando a criança terminava o quarto ano, aliás, sabendo mais que os concluintes do primeiro grau hoje – ali pelos 12 anos meu pai, que era barbeiro, colocou-me para “aprender ofício” como se dizia na época.  Fez o mesmo com os outros sete, exceto minha irmã mais nova que ficou para ajudar minha mãe. Nenhum deles teve dano irreversível. Pelo contrário, todos nós aprendemos uma profissão e ninguém até hoje passou qualquer necessidade. Quando me casei já tinha diploma universitário e terreno quitado. Estudei em escola particular porque o curso que fiz – Serviço Social – não existia nas públicas. Meu pai não me deu um tostão. Foi tudo com meu salário, e ainda lhe dava uma parte para ajudar em casa. Não que ganhasse bem. Apenas tinha foco.

Fiz o mesmo quando trabalhei num abrigo nos anos 80 aqui na cidade. Finda a 4ª série punha molecada para estudar à noite e de dia ‘aprender ofício’, tanto em firmas da cidade quanto na entidade, nas cerca de dez oficinas que criamos. Muitos guardaram dinheiro e por volta dos 18 anos, quando deviam deixar a entidade, não saíram de mãos abanando. Aconteceram imprevistos e acidentes, mas a maioria saiu sabendo pescar seu peixe e ninguém, até onde sei, ficou com danos irreversíveis por trabalhar. A entidade existe ainda hoje. Porém, molecada não pode trabalhar; estuda se quiser, obedece e respeita o monitor se for com a cara dele. E haja capacitação, que serve para encher os bolsos de teóricos espertos, afinal em terra de cego quem tem um olho reina.

Voltando ao início da conversa, esse meu amigo muitas vezes levava seus dois filhos menores para ajudá-lo na banca. Trabalho que não ia além de colocar verdura no saquinho, receber e voltar o troco. Educados e muito simpáticos estavam cada vez mais traquejados na lida com o público. Quais danos irreversíveis isso pode provocar não sei. Sei não podem ir mais. Se forem flagrados, a féria não cobre a multa.

O ECA é uma lei avançada, mas esqueceram-se das condições para aplicá-lo. Tem tudo o que um adolescente não pode fazer. Sobre o que pode quase nada, pelo menos que funcione. Tudo virou dever do poder público, que interfere na vida das famílias. Os abrigos estão cheios de crianças tiradas de família pobres, todas vitimas do descaso de um Estado que jamais cumpriu seu dever, que é promover justiça social. Acaba tudo – Executivo, Legislativo, Judiciário – num faz de conta, já que ninguém sabe o que fazer. Essa brincadeira consome rios de dinheiro, que vão bancar uma rede sócio-assistencial sem meta e um batalhão de técnicos que passam o dia tentando remendar o rasgo que diariamente o sistema provoca no tecido social. Se direcionada fosse de forma monitorada à família pobre essa fortuna os resultados seriam melhores.

Filhos de mais ricos estão sobrecarregados de atividades. Já nas periferias, adolescentes ociosos aglomeram-se nas esquinas. Vender drogas é a opção para muitos, cujos pais não podem bancar-lhes vestuário, calçado, diversão, etc. Quiseram proteger tanto os adolescentes, mas estão perdendo-os. Em vez de fiscalizar e punir explorações tiraram do adolescente o direito de sentir-se pertencente, de ocupar-se, sentir-se útil e de ganhar o pão com o suor do rosto. Passa da hora de os pais botarem um basta nisso e assumirem de fato o futuro de seus filhos e mandar às favas um Estado que nada tem a lhes oferecer senão Fundação CASA, escolas sucateadas e cursos voltados mais aos interesses das indústrias que aos dos jovens.

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