Deus e Darwin no abraço

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genesis1_1noprincipiocrioudeus2O Papa Francisco não sossega. A cada momento um susto na velharada. Sobretudo velhos na cabeça. Um dia reconhece qualidades nos gays; outro dia, uma nova chance para os divorciados e recasados; noutra vez, a prisão de cardeais pedófilos; agora, reacendendo o estopim da velha questão sobre a origem do mundo e do homem: criação ou evolução? A mão de Deus ou a explosão primordial, o Big Bang?

Esse argentino não toma jeito. Quer ver o circo pegar fogo: “quando lemos no Gênesis sobre a criação, corremos o risco de imaginar que Deus tenha agido como um mago, com uma varinha mágica capaz de criar todas as coisas. Mas não é assim”, diz Francisco.

Lembra do catecismo de criança? Aliás, não só. O de adultos também. A catequista, ou o padre, ou o pastor, na sua santa ingenuidade nos convencendo de que uma voz poderosa verberava: haja luz! e o sol e as estrelas piscavam. Haja os animais e os pássaros e, num toque de mágica, os canarinhos trinavam brincando sob o céu azul e o leão fazia a terra tremer de medo com seus urros e ameaças. E nós homens? Como demos a cara? Um boneco de barro em tamanho natural, de repente Deus assopra nas suas narinas e pluft! sai vivinho, falando e assobiando e já procurando uma companheira pra passar o tempo. E o mesmo Deus com o seu poder mágico, põe o homem a dormir e executa a primeira cirurgia sem dor, sob hipnose. E da costela de Adão surge a encantadora Eva. E a nossa pródiga imaginação de pré- adolescentes ia fantasiando cenas e mais cenas de amor naquele Eco resort do Éden. Sozinhos, sem banda, sem celular, sem smartfone, sem internet, que tédio. Só podia dar naquilo: a cobra levou vantagem e os japoneses venderam muita maçã!

Mas depois veio a quebra do encantamento gerando o desencanto. Os professores do cursinho, zoando da nossa credulidade e ingeunidade, detonaram essas fantasias como detonaram os mitos da cegonha, do Papai Noel, do bicho –papão e outros da nossa infância. E riam de nossa crendice na criação do mundo por um estranho, um ser superior, um deus. Nada disso! Tudo começou com uma grande explosão – o Big Bang- que engatou a primeira e foi acelerando e por milhões de anos o mundo deu no que deu. A própria natureza foi se fazendo ao acaso, sem precisar de uma intervenção de fora. E nós humanos não passamos de macacos modificados. Quem duvidar é só comtemplar-se no espelho.

A discussão entre evolucionismo e criacionismo é bem antiga. Tornou-se mais elaborada, mais acadêmica a partir de 1859 com a publicação do livro “A Origem das Espécies”, de Charles Darwin. Ele defende, como resultado de suas pesquisas, a teoria da evolução biológica como processo de formação da natureza, sem recorrer a Deus. Essa proposta de Darwin gerou um forte impacto na religião cristã. Soou como blasfêmia. Mas aos poucos, o debate foi amadurecendo, as arestas sendo aparadas, até chegar a uma conclusão que, respeitados os campos específicos de conhecimento da ciência e da religião, todos podem dormir em paz, seja atordoados com o barulho da explosão do Big Bang, seja com o suave murmúrio de um Deus tirando as coisas do nada.

O papa Francisco acomodou a situação tranquilizando a todos: “O Big Bang que hoje se coloca como origem do mundo, não contradiz a intervenção criadora divina, mas a exige. A evolução na natureza, não contrasta com a noção de criação, porque a evolução pressupõe a criação dos seres que possam evoluir”.

Claro que Francisco usa o discurso religioso, falando aos membros da Pontifícia Academia de Ciências, órgão de pesquisa e estudos do Vaticano desde 1603. O discurso da ciência, para os que não misturam os dados da pesquisa com o creio em Deus Pai, continua defendendo que problemas científicos se resolvem com mais pesquisa, mais estudos não pedindo socorro ao papai do céu.

Mas, o papa botou lenha na fogueira, como é do gosto dele. Nessa luta de tucano com pica-pau, nesse embate entre ciência x religião, o mais prudente é apoiar as duas, só que cada uma na sua sala de aula. Amém.

 

Pe. Otto Dana – Vigário Paroquial Paróquia de Sant´Ana Rio Claro-SP.

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