Domingão Ray Conniff

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229723_451350578290959_320022538_nAh, meu Deus do céu, tive um pequeno “domingão Ray Conniff” sozinha aqui em casa. Imagino o que seria ter um “domingão Ray Conniff” daqueles, ampliando-o ao máximo! Reunir todos os amigos, todos os lindos dos meus grupos eletrônicos, os leitores queridos, daqui, de outros estados e até de outros países também. Ter a graça de reunir as “pessoas-cabeça” fascinantes que conheço. Os antenados e inteligentes. Os sensíveis e os habitantes do nível metafísico. E, sobretudo, os poetas.

Há algum tempo, minha filha mais nova me presenteou com um CD tipo MP3 com 205 músicas da orquestra do Ray Conniff. Já ouvi trezentas mil vezes e em cada vez, chorei, chorei, chorei. É arrebatador ouvir esta orquestra colossal, tocando aquelas músicas que, um dia, todos nós dançamos, abraçadinhos, apaixonados, alucinados, com a alma pegando fogo, sonhando com alguma coisa que ninguém jamais pôde decifrar.

Está lá, no fundo do coração de quem já dançou ao som das músicas de Ray Conniff, com aquele arranjo inconfundível de “Besame mucho”. Eu tenho de me beliscar para ter certeza de que esse tempo existiu e eu vivi nele.

Tudo isso me faz lembrar dos anos 60. Ninguém jamais poderá definir o encanto de dançar a dois aqueles boleros, as músicas lentas e românticas, num tempo em que os pais, ou irmãos mais velhos, nos vigiavam nos bailes. Só dançava de rosto colado quem era noivo ou estava de namoro firme. Tinha de haver uma distância respeitosa entre a dama e o cavalheiro. E as mocinhas casadoiras sabiam como se proteger das investidas mais ousadas.

Hoje, mudo de frequência. Largo tudo, desligo o fogão, tampo a panela e vou me sentar lá fora no terraço, porque Deus me chama para sonhar. Deixo para mais tarde a feitura de uma tarefa caseira qualquer, para poder atender ao chamado do que arde em meu peito. É a música de Ray Conniff.

Ah, misericórdia, um domingão inesquecível. Há um frenesi no ar e a natureza fecha mais um ciclo vital para o planeta. Se você não penetrar esse mistério, pode perder a essência da evolução. Espera aí, que vai começar a sessão musical. É um, é dois, é três! Ray Conniff está no ar.

Arrepiai-vos. Deus criou o mundo e depois descansou. Parou para almoçar. Era domingo. Sigamos o exemplo divino. O céu está beijando a terra e os pássaros namoram. As abelhinhas, curiosas, se aproximam para ouvir: que música é essa? É aquela que faz a alma dançar, reconhecível sinfonia de vozes e metais cortando a carne da gente sem perdão. Ray Conniff enche o ar com sua melodia inconfundível e as criaturas ficam em estado de graça.

O tempo transcorre e as vozes da orquestra de Ray Conniff estão dizendo “when the moon is in the seventh house/ and Jupiter aligns with Mars…” Ou seja, “quando a lua estiver na sétima casa / e Júpiter se alinhar com Marte…”.

Bem, deixa pra lá. Paro por aqui, pelo amor de Deus.

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