Entre a coragem e a apatia

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LOS ANGELES, CA - FEBRUARY 06:  Bob Dylan speaks onstage at the 25th anniversary MusiCares 2015 Person Of The Year Gala honoring Bob Dylan at the Los Angeles Convention Center on February 6, 2015 in Los Angeles, California. The annual benefit raises critical funds for MusiCares' Emergency Financial Assistance and Addiction Recovery programs. For more information visit musicares.org.  (Photo by Kevin Mazur/WireImage)

Depois de narrar a pirâmide de fatos criteriosamente ordenados segundo a gravidade (no caso, queda de avião, corrupção e tráfico de drogas…), o apresentador do noticiário finalmente esboça o sorriso discreto que precede a leitura da reportagem final da edição – aquela que antecede a novela –, costumeiramente a mais leve e inspiradora de todas: “Pela primeira vez, o vencedor do Nobel de Literatura foi um músico: o cantor e compositor, Bob Dylan. O anúncio foi feito hoje, em Estocolmo, na Suécia. De origem pobre, Dylan criou novas expressões poéticas dentro da grande tradição de canções americanas”.

 

Era o mais importante prêmio da Literatura Mundial – concedido pela primeira vez a um músico – sendo anunciado no mais importante jornal do país. (O que está hoje na Educação, na Política e nas Artes esteve antes na Literatura. O registro simbólico da palavra é a maior forma de transmissão de conhecimento, sem o qual não seria possível estabelecer uma cultura.)

 

No sofá, o casal acompanha sem piscar o magnetismo da sucessão de imagens narradas pela voz do repórter. Enquanto assistia, o marido se lembrava de quando tocava músicas de Dylan na época que sonhou ser astro de rock, e que depois foi convencido a buscar a promissora carreira de advogado. A esposa até tinha escutado versões traduzidas das canções do astro norte-americano nas vozes de Humberto Guessinger e Samuel Rosa, mas sem saber da verdadeira autoria.

 

Naquela noite, o mundo se rendia a Bob Dylan, artista de sensibilidade incomum e de uma capacidade rara de transformar impressões sensoriais em palavras que tocam o coração das pessoas. Seu talento legou duras e belas letras, como em Masters Of War: “Vocês que constroem todas as armas/Vocês que constroem os aviões mortais/Vocês que constroem as bombas grandes/Vocês que se escondem atrás de paredes/ Vocês que se escondem atrás de mesas /Eu só quero que vocês saibam /Que eu vejo através das suas máscaras”. E Blowing In The Wind: Quantas estradas um homem deve percorrer/Pra poder ser chamado de homem?/Quantos oceanos uma pomba branca deve navegar/Pra poder dormir na areia?/Sim e quantas vezes as balas de canhão devem voar/Antes de serem banidas pra sempre?”

 

Mas na opinião de um dos entrevistados pelo jornal, no fundo, Robert Allen Zimmerman (Bob Dylan) é só um homem comum capaz de enxergar e traduzir as atrocidades de um mundo doente. “A grande diferença talvez seja sua coragem de usar o próprio trabalho para mostrar isso aos demais e não ser só mais um ser humano apático”.

 

Inquieto, após a reportagem, o marido escuta as últimas palavras do apresentador como quem só espera o final de algo imperdível para tomar uma atitude importante. Ao ouvir o emblemático “boa noite”, ele então pega o controle remoto e… aumenta o volume da televisão.

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