ESCOLA UPP E EBOLA

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Pesquisa divulgada pela APEOESP feita pelo Instituto Data Popular dá conta que “70% dos estudantes acham que as escolas da rede estadual são regulares, ruins ou péssimas”. (Folha S. Paulo 24.03.14). Governo pinta prédio, troca carteiras, fornece livros, dá mochila, merenda, cria abono, inventa mediador, professor auxiliar e progressão continuada; cobre quadra, faz sala multimídia, biblioteca, põe computadores e a escola continua não capacitando alunos – seu único e primordial dever. Acontece que o mundo mudou e ela permanece – grosso modo falando – dentro de quatro paredes, um estudante olhando na nuca do outro; lousa, giz e um professor para ‘domar’ a massa. Lenta, cara, desorganizada, apinhada de funcionários e dissociada da vida dos alunos e da comunidade, se fecha e se burocratiza em excesso – alguém lê a papelada inútil que a escola é obrigada a fazer? Na verdade, esse tipo de escola agoniza, e deve morrer para nascer uma nova, mais de acordo com a mentalidade e as necessidades de hoje. Já que os adultos por motivos óbvios não querem enxergar e muito menos fazer isso, torço para que os jovens o façam.

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A maior UPP do Rio volta à rotina de violência. Tiroteios no Complexo do Alemão são diários e policiais já não controlam toda a área, símbolo da política de segurança do Rio de Janeiro. Parece que governantes não entenderam as palavras do Papa Francisco quando lá esteve: “Nenhum esforço de “pacificação” será duradouro, não haverá harmonia e felicidade para uma sociedade que ignora, que deixa à margem, que abandona na periferia parte de si mesma. Uma sociedade assim simplesmente empobrece a si mesma; antes, perde algo de essencial para si mesma”. O Rio colhe o que plantou. A cidade chique foi erguida pelos pobres. Se os privilegiados da orla tivessem um mínimo de sensibilidade e bom senso teriam evitado tal segregação. Porém, como disse Élio Gaspari: “Atribui-se ao professor San Tiago Dantas (1911 – 1964) uma frase segundo a qual ‘a Índia tem uma grande elite e um povo de bosta, o Brasil tem um grande povo e uma elite de bosta’.” (Folha de São Paulo 12.05.13). Aquela cidade onde Deus esbanjou beleza, poderia ser também a mais feliz; mas nunca terá sossego – assim como todas as que seguem o mesmo caminho porque a paz é fruto natural da justiça. Só um néscio não percebe que segurança mantida à custa de armas é papo de políticos, diga-se de passagem, principais responsáveis pela violência que grassa o país. Se fossem coerentes teriam percebido que fica muito mais caro a ocupação policial dos morros que a ocupação social – saúde, educação, lazer, cultura, trabalho, etc. – que o Estado deveria ter feito há muito tempo.

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Cuba envia 165 profissionais para combater o ebola, anunciou a Organização Mundial da Saúde. Médicos, enfermeiros, epidemiologistas, especialistas em controle de infecções, em terapia intensiva e agentes de mobilização social viajam a Serra Leoa para ajudar a conter a epidemia. Esses profissionais – todos com experiência na África – foram enviados ao país na primeira semana de outubro e permanecerão ali por seis meses. Quando médicos cubanos chegam ao Brasil pelo “Mais Médicos” do governo federal, alguns foram recebidos com vaias por colegas daqui. Quantos médicos brasileiros se dispõem a ir para Serra Leoa? Teriam eles a coragem, o desprendimento e a suficiente generosidade para fazer o mesmo? Pode ser, mas duvido já que a maioria sequer se incomoda com a saúde de milhares de concidadãos vivendo sob condições hostis. Além disso, médico brasileiro que não gosta de [muito] dinheiro é tão raro como suor de político.

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