Estar “no clima”? Manual?

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camisetaEnquanto retornava quinta à noite de minha aula de italiano ria sozinha de um fato narrado por nossa professora genovesa a respeito da “criatividade” italiana. Contou-nos ela que anos atrás quando a lei nacional tornando obrigatório o uso do cinto de segurança entrara em vigor na Itália, um grupo de napolitanos para burlar a lei criara uma camiseta com o desenho de um cinto de segurança impresso no tecido da camiseta… Redundante dizer que fora um sucesso de vendas.

Se fossemos comparar, a mesma dita “criatividade” italiana encontraria paralelo fértil em nosso país. Tantos e tantos seriam os exemplos de nossa rica “engenhosidade mental” a burlar, a “diversificar” a retidão e lisura do caminho fazendo-o cheio de curvas e arcabouços.

Nossa cultura é gêmea univitelina à cultura italiana no tocante ao respeito às leis, por exemplo. Sem mesmo abandonar o assunto sobre trânsito, lembro-me do comentário jocoso feito por meu marido no começo de nosso namoro durante uma tarde na qual dirigíamos pelas ruas de Campinas. Ao notar que vários carros não paravam diante de placas de “STOP” com alguns mesmo ignorando os sinais vermelhos, ele me olhou com um sorriso e disse algo como: “aparentemente a lei aqui é uma sugestão, não? E provocativa e ironicamente arrematou: “Se você estiver a fim, se você estiver “no clima”, você acata. Do contrário ignora né?”

Poderíamos enumerar um numero sem fim de exemplos daqueles que em nosso país não estão “no clima” de obedecer a lei, citando talvez os mensaleiros e seus milionários astutos advogados como os especialistas dos especialistas nesta seara. Mas, o intuito do artigo não seria este, embora consignada fique a tristeza e o asco que todos estes senhores e suas histórias causam a esta escriba e à muitos na nação.

O intuito do artigo é discorrer sobre a impossibilidade de se ter tudo, de se ter apenas as melhores características agrupadas sem o risco do negativo.

Fazendo-me entender: aqui nos Estados Unidos o comportamento por trás dos exemplos acima mencionados não encontraria guarida. Motoristas param em cruzamento com placas de pare independentemente de estar a rua cheia ou completamente deserta, de ser quatro da tarde ou quatro da manhã. Há placa de pare, você para. Ponto. Aqui, obedece-se a lei, esta estende seu braço coercitivo sobre os cidadãos sejam eles aprendizes delinqüentes de gangues juvenis sejam eles sofisticados e inteligentes milionários envolvidos em atividades criminosas como Martha Stewart ou Kenneth Lay.

Oxalá tivéssemos a mesma educação no trânsito (e em tantos outros campos) e quiçá os tentáculos de nossa lei de fato atingissem a todos igualitariamente.

Mas embora totalmente louváveis e admiráveis estas características, a parte é necessário dizer também que esta mesma sociedade disciplinada e respeitadora apresenta certas mazelas, talvez creditadas a um excesso de obediência, ou melhor dizer a um excesso de regramento, que andam fazendo-a parecer emburrecida, sem bom senso. Na verdade, este é um dos pontos chave da complexa questão. Na ânsia de agirem “by the book” (de acordo com o estabelecido) muitos estão se tornando robôs, ora insensíveis ora sem total discernimento para agirem por conta própria.

Há regras para tudo. Há “policies” (normas/políticas) internas para tudo. Nas escolas, nas companhias, nos restaurantes, nas associações de bairro, em todo lugar. E na busca por evitar serem processadas juridicamente por qualquer erro cometido, muitas pessoas agem apenas conforme o regrado, não “arriscando-se” a dar um passo a mais.

Um claríssimo exemplo disto e do total aniquilamento nem mais agora do bom senso, mas de humanidade, foi o polêmico caso ocorrido há meses na cidade de Alameda, Califórnia. Um homem que estava se afogando na baía não foi socorrido por bombeiros que presenciavam a cena porque estes não tinham naquele momento os devidos equipamentos estipulados pelo “manual de procedimentos dos bombeiros”. O homem em questão acabou sendo salvo por um turista o qual também não tinha os ditos “equipamentos”.

Ele tinha valores.

Valores não vêm “codificados” em manuais de comportamento.

 

1 comentário

  1. Fernando Fernandes em 05/11/2013 às 09:47

    Buenas,

    Devido a correria, li apenas hoje.
    Este artigo faz a gente refletir em vários aspectos:

    – O Brasil não é o único país corrupto, apesar dos brasileiros acharem que é…
    – Sempre penso na possibilidade de sair deste país, mas para onde ??
    – Qual será o futuro dos meus filhos ?? Será que o Brasil é a melhor opção ??
    – Qto a respeitar leis, o que dizer se não somos respeitados em nenhum lugar ???
    – Parar na sinaleira as 4 hrs da manhã ?? Suicídio talvez seja menos doloroso….

    A dura realidade é: quais são as nossas chances de viver no lugar ideal ??

    Forte Abraço

    Fernando

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