Eu amo o trânsito

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Amo o trânsito e as leis de trânsito. E amo-as desde menina, acompanhando meu querido pai guiando o seu jipe, indo pelas estradas de terra. Eu me encantava e sonhava com o momento de aprender a dirigir. Meu pai me deu as primeiras aulas. Lá no sítio, algumas vezes, ele me deixava dar umas voltas com o jipe. Eram momentos de pura magia e beleza.

O sonho de todo jovem é “tirar carta”. E eu também passei por todas as etapas necessárias para a obtenção da CNH. Pois no dia 8 de dezembro deste ano, completo 40 anos de direção. Lembro tão bem de quando tirei a Carteira Nacional de Habilitação, em 1972, aos 22 anos. São quatro décadas conduzindo veículos, tempo suficiente para um motorista solidificar sua experiência e habilidade na chamada direção defensiva.

Recordo-me também de quando meu marido, no início da nossa vida de casados, trocou um Chevette por um Opala e do quanto penei para dirigir o carro grande, fazer balizas, estacionar em locais difíceis. Contudo, com o tempo e a prática, a gente aprende, supera as dificuldades, sobretudo quando se é jovem e se tem muita vitalidade.

Três cirurgias de coluna não me tiraram a capacidade de dirigir muito bem, pois tenho força e sensibilidade suficientes para acionar com segurança os pedais do automóvel. Ao longo destes 40 anos, jamais me envolvi num acidente de trânsito e vejo que, à medida que a idade avança, ficamos mais cautelosos, atentos e vigilantes.

Modéstia à parte, relato com humildade que uma de minhas especialidades é fazer balizas. Quanto menor a vaga, maior o desafio. E estacionar o carro direitinho, com rapidez e destreza é algo que pratico com prazer e alegria. Uma direção hidráulica ajuda, claro.

Mas há algo que aprecio, desde meu primeiro contato com o saudoso instrutor cujo apelido era “Branco”. Foi com ele que tive uma aula de civilidade e de acuidade nas principais manobras ao volante. “Branco” era uma pessoa ética e também amava o trânsito. Ele passou para mim este amor à ordem e aos princípios dos quais não se pode fugir, sob pena de multas e advertências merecidas.

Amo o trânsito e as leis que regem este universo onde nem sempre imperam o respeito, a gentileza, a elegância dos gestos e palavras. Amo, sobretudo, a lógica do trânsito e sua operacionalidade, sua organização e o equilíbrio em que as regras mais básicas têm a máxima importância e extremo valor no aparentemente banal vai-e-vem dos veículos nas mais diferentes vias.

Costumamos ouvir muitas críticas ao trânsito das nossas cidades. Contudo, quem faz o trânsito somos nós, os motoristas habilitados. Grande parte dos problemas poderia ser resolvida, se dependesse da boa vontade de cada um, da observância a toda sinalização, principalmente no que toca ao respeito aos pedestres.

Quando abordamos o trânsito, não podemos priorizar o carro, o veículo em si, em detrimento do transeunte, dos pedestres ou daquela pessoa que, pelo peso da idade, atravessa vagarosamente a rua, num momento perigoso para ela. O tempo todo, a atenção do motorista é exigida. Um descuido, um momento de desatenção e pode-se correr o sério risco de causar um acidente. Falar ao celular, sintonizar o rádio, abaixar-se para coçar o pé… É impossível dirigir e responder a um torpedo de celular. É preciso corrigir esta insanidade.

Relatei que nunca me envolvi num acidente. Nunca bati meu carro, mas “bateram em mim” – conforme se diz popularmente. E numa das duas vezes em que isso ocorreu, prestei socorro imediato à vítima. A moto vinha em alta velocidade e meu carro estava parado numa fila, aguardando a abertura do sinal. Eu era a última da fila e vi pelo retrovisor que a moto iria colidir com meu veículo. Ele freou, mas bateu. E a namorada do rapaz, na garupa, foi jogada ao chão, batendo com a cabeça e ferindo a perna.

Transportei a moça até a Santa Casa e depois fui fazer o B.O. Houve abertura de processo, compareci e tive de falar a verdade, que o rapaz pilotava de modo veloz, deve ter se distraído e não viu a fila de carros parados. Quantos acidentes seriam evitados, se todos trafegassem sempre na velocidade compatível com a via e se a sinalização fosse rigorosamente respeitada.

Amo a lógica do trânsito, a beleza dos veículos circulando e enchendo a cidade de ritmo, ajudando a todos no seu dia-a-dia, pois dependemos do nosso veículo. Um carro não é um luxo e, sim, para a maioria, a máquina imprescindível. Um bem de primeira necessidade, pois se trata da locomoção para o trabalho e para as emergências da vida.

Deus Pai! O que seria de nós sem o nosso abençoado e sagrado carrinho? É ele que nos ajuda a cumprir nossos compromissos diários, nossa rotina de afazeres, as saídas necessárias. É ele que nos leva à santa missa no domingo e à casa dos nossos entes queridos.

Dirigir, para mim, significa uma bênção! Estar na direção de um veículo é algo que bendigo sem cessar. Ganhei de uma sobrinha uma peça em couro, pequenina e graciosa, com a imagem de São Cristóvão, protetor dos motoristas. Amarrei-a junto ao espelho retrovisor, onde tenho pendurado um terço pequenino. E ao santo me confio na certeza de que estou em boas mãos.

Ao dar a partida no meu carro, vou me recomendando ao arcanjo Rafael, protetor dos viajantes. Agradeço a Deus por estes 40 anos de direção. Peço a graça de escapar ilesa de todos os riscos e perigos. E rezo enquanto dirijo. Amém.

Marisa Bueloni mora em Piracicaba, é formada em Pedagogia e Orientação Educacional. É membro da Academia Piracicabana de Letras – marisabueloni@ig.com.br

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