Eu detesto meus pais

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politicoDepois de longos anos de vida cheguei à conclusão que eu detesto meus pais. Detesto porque desde a tenra idade apendi sobre os valores da ética, dos bons costumes, da moral e do respeito ao cidadão, ao ambiente e ao país. Detesto por ter aprendido que não se entra na casa de ninguém se pedir licença e que muito menos se abre a geladeira pelo mesmo motivo. Revolto-me ainda, por ter aprendido da mais ardida forma, o sabor da pimenta aos comentos dos palavrões ofertados. Revolto-me, também, pelos puxões de orelha, reguadas na cabeça e castigos com pé no lixinho da classe; todas, pelas travessuras da sala. E de igual revolta, quando ao chegar em casa ficava de novo em castigo repagando a pena. Detesto-os por tudo isso e principalmente por me perguntarem: o que você quer ser quando crescer, e que quem sem estudo, nada teria. Daí, lá fui eu, por longos anos pelo primário, ginásio, colegial e universidade. Detesto-os ainda mais, por todas as vezes que reclamei e mesmo na minha insistência, sempre fui repreendido e levado de volta para a ladainha dos valores da ética… blá, blá, blábláblá!.. e que era preciso amar as pessoas como senão houvesse amanhã! Até que um dia, um amigo meu, cansado desse meu repeteco de reclamos, de forma simples e objetiva deu a solução: – por que você não vira político? Na hora o sangue me subiu a cabeça por ver e sentir que todos os ensinamentos e projetos de educação determinados pelos meus pais, me levaram e levam um enorme tempo de uma responsabilidade sem fim. E nesse instante, por num duplo momento de cansaço e fraqueza, dei meu braço a torcer. Meus pais deveriam ter me ensinado os rumos da política, pois tem político que rouba (e como tem) e não vai preso, pois ainda, castigos e cadeia só valem pra bandido, pobre e ladrão de galinha, e pra mim, que na infância, sempre paguei, penas de duplos castigos. Tem político que pra trabalhar duas sessões por semana, dar nomes às ruas e quem nem sabe falar direito, ganhando 11 mil por mês. Daí eu pergunto: Quantos anos de profissão e experiência deve levar um profissional da engenharia, medicina, além de outras para se assemelhar ao ‘digno’ salário desses marajás? Ao fim de tudo isso, quero ser justo e de verdade dizer que adoro meus pais, pois me formaram uma pessoa melhor…uma pessoa diferente, justa por princípios e que mesmo em pesadelos, consegue por a cabeça no travesseiro e dormir, independentemente daqueles que me atiram sempre na cara: – Azar o seu!

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