EU, EMÉRITO… POR QUE?

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No dia 04 de setembro de 2013 acordei emérito. Me perguntava que diabo seria isso … emérito?! O que me fez diferente de um dia para o outro? Testei minha performance física: dobrei as pernas…igual ontem. Estiquei os braços…tudo funcionando. Girei o pescoço…meio travado como antes. Apalpei a barriga…nenhuma dor. Com todo o pudor, conferi as intimidades. Aí, sim, desastre total. Mas, isso já há de muito tempo. Um penduricalho inútil, feio, antiestético. Não serve nem para fazer justiça com as próprias mãos.

Levantei, fiz os alongamentos e aquecimentos habituais para ir à academia. Tudo em perfeitas condições. Nem uma dorzinha a mais: esteira, bicicleta, extensora, flexora, abdominal, supino, barras, glúteo…Concluí: nada me fez diferente, a não ser um título. Que não é um título de honra. Diria que mais parece um atestado de óbito pré-datado.

Pra quem passou 46 anos da vida entregando as 24 horas de cada dia a cuidar das coisas das cinco paróquias que me foram confiadas pela Diocese – Analândia – Corumbataí, Santa Terezinha, Catedral (35 anos) e Sant’Ana, de repente a emeritude me lançou no limbo. A cada dia acordar me perguntando: e hoje, o que vou fazer? Quando eu perguntei ao Bispo: e agora, o que vou fazer com toda a experiência acumulada e com toda a saúde e disposição para trabalhar que ainda tenho? A reposta curta e grossa: Você vai ficar de “coringa”. Se algum padre precisar de você e o convidar para celebrar, você vai. Depois de 46 anos de dedicação à diocese, você vira “coringa”. E querem mais? Nem um cartãozinho, nem um “obrigado” por parte da diocese. Simplesmente, “a partir de hoje, você é um “coringa”.

Como faz a sociedade leiga, a Igreja invoca a idade como determinante e não como referencial. Bateu 75 anos, você é um imprestável, um inútil, você está fora. A única preocupação sua, a partir de agora, é comprar um lotezinho no cemitério, um caixão e esperar.

Ora, a velhice é um processo para além da dimensão biológica ou cronológica, ou seja, um processo sócio-histórico e subjetivo. Eu não pedi a aposentadoria (ou emeritude). Me foi imposta. Ainda me sinto em perfeitas condições físicas e psicológicas de continuar à frente de uma igreja com responsabilidade e não penas como tapa-buraco, “coringa”.

Admira-me uma Diocese carente de padres, dar-se ao luxo de desperdiçar talentos e forças vivas, invocando o pretexto de aplicação do Direito Canônico que, aliás, não é tão determinante para os padres como o é para os bispos.

A Igreja, por seu formato institucional e por seu modo particular de lidar com as questões contemporâneas, está carente de estudos sobre a emeritude. Haja visto, por exemplo, a falta de literatura mais exigente sobre ao assunto. Em muitos casos ela age mais como empresa do que como instituição religiosa. E como empresa, deixa de agir com o coração e até com a razão.

Por favor, não me cumprimentem por esse título de “emérito”. Só quando estiver em agonia, pois, para mim “EMÉRITO” é só trocar as vogais:  É – MORTO!!

2 comentários

  1. LUÍS ANTONIO RÉ em 26/02/2014 às 07:16

    nossa diocese sempre com discordâncias, exemplo padre Jocelir, nosso bispo precisa sentir o cheiro das ovelhas!

    • Antonio em 27/02/2014 às 11:24

      Acho que está certo o bispo. Que lugar tem um padre Otto numa Igreja morta, omissa, conivente e materialista como a piracicabana? Nossa Igreja ‘cheira mal’; está há muito tempo dentro do túmulo. Guardo no coração a vitalidade, a coragem e o profetismo do padre Otto. Depois dele Piracicaba só andou para trás. Será que foi de propósito que ele foi afastado daqui? Será que também foi proposital a fala do Thame na aula inaugural do curso de teologia da diocese?

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