Fadiga

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images (1)Para a maioria dos trabalhadores do comércio até o Natal nada de feriados, sábados, domingos e nem noites de descanso. A Rua Governador se transforma numa fazenda de trabalho quase que forçado porque ao funcionário não cabe escolha.  Na ‘fazenda’ Shopping o regime é ainda mais severo. E todos os que compram sem necessidade e, mais ainda, no período da noite e aos domingos sustentamos tal regime. Se Jesus trouxe libertação os comerciantes trouxeram a escravidão.

Evidente que comerciar é inerente à vida humana. Sem compra e venda não há empregos e sem emprego seria o caos. Porém, não haveria um sistema mais razoável aonde pessoas não virem máquinas? Existem lojas tradicionais em Piracicaba que não abrem aos sábados por motivos religiosos e estão há décadas na lida, concorridas e fortes. Está certo o ditado: “Vale mais quem Deus ajuda que quem cedo madruga”. No final desse exaustivo período certamente terão, comerciários e comerciantes, dinheiro no bolso, mas detonados pela canseira e tristes porque a vida só tem ida, e dinheiro não reverte fatos ou recupera momentos de alegria que encontros saudáveis proporcionam.

Os escravos não tinham remuneração, por isso o fazendeiro os alimentava, abrigava, vestia, dava descanso, cuidava de sua saúde, afinal se doentes representavam enorme prejuízo, já que custavam caro e sua mão de obra era imprescindível.  Embora a comparação seja grotesca, apesar da semelhança dos regimes, hoje os salários que a maioria dos trabalhadores recebe são suficientes para lhes bancar alimento, moradia, transporte, vestuário, lazer e mais ainda, qualidade de vida? Mais trabalho, menos produtividade, dizem especialistas, segundo os quais o bom desempenho dentro da empresa depende de jornada normal e dedicação à vida pessoal. Empresas com funcionários mais felizes conseguem resultados melhores. Quanto melhor o ambiente de trabalho – não o salário – mais cobiçada a empresa.

Diziam que o progresso tornaria a vida mais leve e o trabalho menos extenuante; que as pessoas teriam mais lazer e tempo para ficar com familiares. Aconteceu nada disso, pelo menos para assalariados. Pelo contrário, o trabalho virou álibi para os que fogem de si e dos seus; um ídolo a quem todo mundo serve para ter vez e sobreviver com alguma dignidade. No seu altar sacrificam-se família, filhos, maternidade, relações, tempo de vida, passeios, sonhos e valores. Existem filhos que só têm os pais para si aos domingos e olhe lá. Negócios crescem a todo vapor; crianças definham sem afeto, rumo e sem ter com quem contar – presas fáceis do predador mais asqueroso e covarde que a modernidade produziu: o vendedor de drogas.

Produzir é preciso. A boiada necessita consumir para preencher o buraco que traz na alma. Cada vez mais gorda e infeliz, o que procura as lojas não têm. O trabalho, motivo de satisfação, participação e realização para o ser humano, deixou de sê-lo para a maioria. Tanto que “Afastamentos por doença mentais disparam no país. Cotidiano das grandes cidades faz que as pessoas vivam estressadas. A competitividade entre as empresas faz com que elas exijam mais de seus empregados. Essa cobrança, os problemas pessoais, os familiares, os sociais, o trânsito caótico, a violência urbana têm contribuído para que os trabalhadores cheguem ao local de trabalho já sob pressão. Em tempos de “salve-se quem puder”, as pessoas são pressionadas a produzir mais, a vender mais, a melhorar a qualidade dos produtos. Quem não entra nessa espiral fica para trás”. (Folha 25.11.11).

“Filho, não sejam muitos os teus afazeres… Há quem trabalha, canse-se, apressa-se e está cada vez mais para trás”. (Eclo 11,10). Não se prive de um dia feliz, nem deixe escapar um desejo legítimo. Por acaso você não vai deixar para os outros o fruto de suas fadigas, e não vai ficar para os herdeiros o fruto dos seus sacrifícios?” (Eclo 14, 15).

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