Foco errado

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images (1)Trabalhei como assistente social durante 30 anos, sendo os últimos 14 na Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social da Prefeitura de Piracicaba – SEMDES. Confesso que tive mais sucessos que fracassos, não por meus méritos, mas porque em vez de meus chefes procurava ouvir a população com quem trabalhava. Com ela aprendi o que os livros não ensinam confirmando Cora Coralina: “O saber a gente aprende com os mestres e com os livros. A sabedoria se aprende é com a vida e com os humildes”.

Afinal, gente que ergue moradia em lugares que nem engenheiro consegue; que recomeça a vida depois de enchentes e tragédias; que faz os serviços mais desprezíveis e degradantes em troca de oitocentos, mil reais por mês e mesmo assim consegue sobreviver com dignidade; que faz das tripas coração para cuidar e educar filhos em ambiente hostil; que passa vontade de comer e se vestir bem, de ter coisas boas e de passear; que tira até com ironia o desprezo que recebe por pertencer a uma classe excluída das rodas sociais e das igrejas; que deixou sua terra com uma mão na frente e outra atrás e mesmo assim se mantém acolhedora, esperançosa e até festiva, essa gente sabe muito mais da vida que periguetes madames, que de seus gabinetes se metem a ditar regras a quem é escolado nos revezes da vida.

Neste sentido, às vezes sinto pena dos profissionais que trabalham sério na área da Assistência porque lidam diariamente com o sofrimento humano e não têm à disposição recursos necessários para reverter a situação. E mesmo quando existem são limitados e não pensados para atingir as causas da exclusão. São paliativos. Programas de transferência de renda, abrigos, casas de passagem, etc. não passam de remendos. Até mesmo Conselhos Tutelares, CREAS, Fundação CASA, Vara da Infância, programas de atendimento básico e especializado o são enquanto isolados.  Custam uma fortuna para a sociedade e pouco resolvem porque estão após os fatos. E, como podem se habilitar a lidar com o sofrimento humano se, além de despreparados, não se entendem nem entre si? Parece o roto querendo cuidar do rasgado.

Vi, pela imprensa, que Piracicaba demanda um terceiro Conselho Tutelar. Como, pergunto, se os serviços disponíveis são primários, insuficientes e ineficientes? São tantos os órgãos, tantas siglas, normas e orientações que ninguém entende mais nada. Não é de equipamentos amortizadores da dívida social que precisamos, mas de ações públicas que tragam qualidade de vida para todos. Cada vez mais essas organizações perdem credibilidade; os usuários já perceberam que ladram, mas não mordem. Basta ouvi-las e fazer de conta que estão certas.

Os profissionais da Assistência – assim como os da saúde, educação, segurança, etc. – não são chamados pelos gestores para participar na elaboração das políticas públicas, nem nos seus planos, programas e projetos. Poderiam, por exemplo, contribuir imensamente no planejamento de núcleos habitacionais – até o momento feito por entendidos de tijolo e não de gente e suas relações. Os resultados estão aí. Além do comércio das casas muitos desses empreendimentos acabaram virando zonas de exclusão e violência.

O poder público é o maior gerador de marginalidade enquanto não coloca o bem estar do cidadão – especialmente o desprovido – como meta de sua gestão. Falando nisso, Piracicaba caiu no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano Municipal da ONU, o que demonstra o foco errado das últimas administrações.

Fazem o estrago e querem que a Assistência conserte.

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