Inútil greve – Parte Dois

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Disse em texto anterior que o movimento grevista do professorado paulista está com foco errado, tanto quando quer aumento nos salários quanto condições melhores de Ensino. Repito que, embora mereçam, salário por si só não muda nada, mesmo que ganhem dez vezes mais. A ESCOLA que temos – grosso modo falando – não atende necessidades atuais. “Todos os pais que me escrevem disseram que os filhos não gostam de estudar, que não se preocupam com as notas baixas, tampouco com o risco de retenção ou de mudança de escola. Nem as ameaças funcionam, contam os pais. Nem mesmo prêmio em dinheiro, que os mais novos gostam tanto de ter, dá resultado”. (Rosely Saião – JP 30.10.12). Aproveitando-se da ignorância de um povo que confunde prédio bonito com escola boa, políticos aventureiros anarquizaram tudo. Pintam, reformam, trocam carteiras, fazem apostilas, mas nada de mexer no essencial. Se gasta mais no ‘andaime’ que no prédio. Parece que os jovens perceberam isso antes dos professores. “70% dos estudantes acham que as escolas da rede estadual são regulares, ruins ou péssimas”. (Pesquisa APEOESP – Instituto Data Popular. Folha 24.03.14).

Essa ESCOLA não responde seus anseios e contraria sua visão de mundo. “Faltas nas escolas lideram denúncias no Conselho Tutelar em 2014”. (JP 03.03.15). É uma escola pensada pelos adultos para enquadrar gerações que chegam questionando conceitos e quebrando preconceitos. Para alguns, lecionar é bico. Diretores – muitos deles e delas – fazem da escola seu gueto; são centralizadores, burocratas e se servem do cargo para satisfazer carências pessoais. Em 30 anos como assistente social, penei para conseguir adesão de diretores e diretoras a projetos comunitários. A maioria alega acumulo de serviço para não se envolver com coisas de fora. Além do mais “Um em cada cinco diretores de escolas públicas é indicado por políticos. Critério é adotado por 12,4 mil colégios estaduais e municipais do país”. (Folha 07.10.13). Alguém acredita que todos os diretores estejam a fim de mudar as coisas? Claro que encontrei diretoras – pouquíssimas – maravilhosas, tanto que suas escolas brilhavam, e ainda brilham. Aí o problema não é com os alunos, professores ou comunidade, mas com superiores que as perseguem por inveja e pela dificuldade em manter controle.

A maioria das escolas pensa dar conta sozinha. Cercada de muros, não percebe que o mundo mudou. Aliás, até percebe, tanto que se esconde porque tem nada a oferecer; virou refém. Não vejo o pessoal da Educação em reuniões comunitárias, conferências municipais, discussões sobre problemas da juventude, embora lide com milhares de jovens todos os dias.

A escola precisa ‘derrubar’ muros, inclusive os de tijolos. Precisa de independência para se comprometer com a comunidade a fim de ter projeto educativo concreto e pactuado. Deve melhorar sua visão de mundo, peitar políticos, governos e estruturas que massacram e sufocam. Essa mudança não vem no grito. Vem de dentro para fora. Nasce da mudança de mentalidade. Conquistas materiais demandam vigilância constante. Idéias não. Escola que se enche de grades e câmeras acredita no ser humano? Entende que relações positivas são mais eficientes que regras?

Vocês, professoras e professores têm às mãos a matéria prima onde se engendra mudanças. Nenhum político reúne tanta gente como vocês. Nenhum deles consegue falar a tantos ouvidos todos os dias e durante tantos anos. Vocês não perceberam ainda? Os construtores estão rejeitando a pedra principal. Em vez de se queixar de alunos e ignorá-los como fazem muitos de vocês, unam-se a eles e então serão imbatíveis. Não se calem! Reclamem; mas tenham foco certo. Afinal, “Quem sabe faz a hora”.

“A juventude é a janela pela qual o futuro entra no mundo”. (Papa Francisco).

1 comentário

  1. Bruno de Aquino em 03/06/2015 às 17:21

    De que o movimento grevista dos professores está fora de foco creio que não restam dúvidas. Agora acreditar que mudanças significativas no sistema educacional do Estado possam ocorrer a partir da atuação dos professores em sala de aula soa como algo no mínimo equivocado. Estamos falando de uma categoria que têm sofrido ataques desabridos há décadas, com salários pouco atraentes, totalmente fragmentada e bombardeada com o discurso de que nada se pode fazer contra a sua situação profissional. Discurso esse repetido por gestores da educação e implícito na desfaçatez com que a Secretaria Estadual da Educação organiza a carreira dos docentes e, o mais grave, a estrutura curricular. Sem a implantação de um plano orgânico eficiente inútil seria, ao meu ver, os professores se calarem diante da situação de eterna provisoriedade resultante de políticas educacionais que atendem certamente a interesses escusos. Considero que devam ser discutidas maneiras mais eficazes para lidar com a questão de modo a não restringir todo o debate a uma greve, o que certamente demanda o envolvimento da sociedade como um todo. Em suma, talvez seja realmente muito mais útil em espaços como essa coluna sensibilizar a sociedade sobre a importância da educação, denunciar a falência do sistema educacional e os responsáveis legais por essa situação. Ou por que não discutir sobre a insistente postura do governo estadual de negar todos os grandes problemas – e debates! – que envolvem a sociedade paulista? O que quero dizer, enfim, é que descaracterizar a greve dos professores soa mal, pois enquanto uma categoria mal reconhecida e mal amparada luta por seus diretos – e faz isso de modo legítimo – o governo do estado passa por toda essa crise praticamente incólume, inclusive, ao meu ver, nesses dois artigos. Mais útil seria, certamente, refletir sobre as raízes do problema e tentar despertar nos leitores mais atenção para o problema.

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