Lápide

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lapide--lapide_19-108854Quando se trata de EDUCAÇÃO – mais especificamente escola – raramente vejo crianças, jovens ou adolescentes opinando e sendo ouvidos. Em geral, quem dá as cartas é gente velha, que devido à carreira e ‘experiência acumulada’, se acha em condições de dizer à geração de agora como deve ser ou não ser o sistema de ensino, inclusive a grade curricular, o conteúdo das matérias e o material a ser utilizado.

Gente velha para mim não se restringe a idade tão somente, mas a forma de pensar. Apesar das exceções, que pouco influenciam, essa velharada domina órgãos governamentais e de decisão. É ela que – grosso modo falando – projeta e equipa prédios escolares; seleciona professores e servidores; escolhe os territórios, dispõe qual escola vai ter período integral, qual abre e qual fecha, qual vai ter segundo grau, determina dias letivos e punições; escolhe material didático, fornecedores e o que servir na merenda; bola o sistema de aprovação e reprovação – que nos últimos anos obedecem a critérios políticos, já que ao gestor interessa dados estatísticos positivos. Aliás, tão logo políticos ‘descobriram’ a Educação como vitrine eleitoral, o sistema adoeceu. Hoje beira falência múltipla dos órgãos. A visão neoliberal vê investimentos como gastos e cortaram onde não devia. Tiraram espaço da Educação Física favorecendo sedentarismo e obesidade.  Detonaram as áreas humanas. Acabaram-se aulas de música, fanfarras, desfiles, laboratórios, feiras de ciências, atividades manuais e artísticas e atividades interescolares. Não querem cidadãos que pensem, questionem e assumam o próprio destino; querem massa que mova a Indústria, por isso investem pesado em matemática e português, e nem assim conseguem bons resultados.

Não à toa, os jovens perderam o gosto pela escola. A geração “nem – nem” (não estudam e nem trabalham) só vem crescendo. Segundo pesquisa da APEOESP “70% dos estudantes acham que as escolas da rede estadual são regulares, ruins ou péssimas”.  Rosely Saião comenta que “Todos os pais que me escrevem disseram que os filhos não gostam de estudar, que não se preocupam com as notas baixas, tampouco com o risco de retenção ou de mudança de escola. Nem as ameaças funcionam, contam os pais. Nem mesmo prêmio em dinheiro, que os mais novos gostam tanto de ter, dá resultado”. (JP 30.10.12). Entre 2012 e o primeiro semestre de 2014, foram realizadas 3.912 atendimentos pelo Conselho Tutelar II de Piracicaba. Evasão nas escolas estaduais tem mais demanda; foram 1.227 nesse período, 106 somente neste ano. (Gazeta de Piracicaba 03.10.14). Nosso sistema de ensino está morrendo. Se eu fosse aluno hoje teria sido expulso da escola porque reagiria a tanto descaso.

A Diretoria Regional de Ensino está mais para OVNI que órgão articulador dos recursos públicos e privados, que jorram dispersos, dispendiosos e desarticulados. Deveria funcionar como fórum popular permanente de questionamentos e debates sobre a situação do ensino público e privado; um laboratório de idéias e experiências. Mas está lá, apinhada de gente cansada, cada um agarrado em seu galho. Não perceberam ainda que a árvore vem secando pela raiz.

Para piorar as coisas “Um em cada cinco diretores de escolas públicas é indicado por políticos. Condenado por especialistas, [esse] critério é adotado por 12,4 mil colégios estaduais e municipais do país. Nos EUA, gestor é escolhido por eleição ou processo seletivo”. (Folha 07.10.13).  Uma escola tem a cara do seu diretor. Sem compromisso, empatia e sensibilidade a escola vira um balaio de gatos.

Li que estudantes da escola estadual Altos de Piracicaba se manifestaram publicamente contra retorno de diretora. Queriam que ficasse a substituta por ter feito um bom trabalho. Espero que tenham conseguido. Oxalá os jovens protagonizem o nascimento de uma escola com sua cara porque à que aí está só falta lápide.

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