Lição de Casa

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downloadO Brasil está em guerra contra o Aedes. Vale tudo: mosquito transgênico, drone, repelentes, inseticidas, fumacê, veneno na água, etc. Para mim isso tudo é desperdício de dinheiro. É até cômico ver canelas de vidro e engomados do governo saírem pelas ruas catando latinha com a ponta dos dedos e jogando pneus velhos em caçambas para sair na foto. Mesmo que tais atitudes fossem autênticas e sinceras resolveriam alguma coisa? Desde quando catar lixo pelas ruas acaba com o mosquito? Prefeituras recolhem diariamente toneladas de inservíveis descartadas a céu aberto por uma população mimada e irresponsável, que continua jogando.

Como o que começa errado segue errado, inventaram mosquito transgênico. Querem acabar com o mosquito botando mais mosquitos na parada. Todas as intervenções que o ser humano fez na natureza deram zebra porque ele não tem visão do todo; enxerga a árvore, não a floresta. Desde que chegou ao planeta só fez por destruir – como criança que quebra o brinquedo para ver como funciona. Mesmo assim mal sabe para que serve uma minhoca. Após botar no chão florestas e matas percebeu que elas protegem os rios, o solo e influem no ciclo das chuvas. Depois de contaminar o ambiente com pesticidas a fim de proteger suas lavouras percebeu a importância dos insetos, dos pássaros, animais e abelhas. Após dizimar os grandes bichos viu sua importância na cadeia alimentar e na diversidade das matas. Mesmo assim teima na contramão. Antes de comemorar inventos imediatistas e paliativos estudaram qual a função do Aedes na teia da vida?

Para completar, surgem ventarolas de plantão pedindo liberação do aborto para grávidas infectadas com o vírus Zika. É mais fácil matar fetos que mosquitos. Querem consertar uma tragédia com outra. Se, como dizem, a mulher tem direito e domínio sobre seu corpo ela pode esperar momento propicio para engravidar. Vi matéria com uma mãe de criança com microcefalia. A criança esbanjava saúde e alegria e ela se dizia muito feliz e que jamais abortaria. Que dizer então de milhares de mães de crianças com deficiência que tiram de letra sua missão, e dizem que esses seus filhos só lhes trazem alegria e sentido para a vida? Li articulista da Folha de São Paulo dizendo que se fosse mulher, estivesse grávida e infectada pelo Zika, abortaria.  Ainda bem que o cara não é mulher. Felizmente a maciça maioria das brasileiras não pensa como um banana desse naipe. Se cabeças de vento como ele querem mesmo ajudar, invadam as câmaras de vereadores e os gabinetes dos prefeitos exigindo que saneamento básico seja prioridade absoluta, pois esse é o problema, não o mosquito em si.

Enquanto o Brasil não fizer a lição de casa essas ações não passam de lorota.  Ouço falar de dengue há décadas. Arrastão pra lá, arrastão pra cá, dinheiro público aos montes e resultado sempre pífio. Até quando esse faz-de-conta? Adianta ficar catando latinhas nas ruas se o município não leva a serio a questão do lixo, que também pouco resolve se a população consome e descarta cada vez mais? Um país que torra dinheiro com arenas de futebol e Vila Olímpica; que gasta montanhas em campanhas eleitorais; paga salários de marajás a servidores privilegiados e deixa quase metade da população sem afastamento de esgoto quer o quê?

É preciso cadeia para gestores públicos que se fazem cegos à ocupação de morros e várzeas; à impermeabilização de áreas urbanas; à destruição das matas ciliares e ocupação de áreas de preservação e de risco; ao tratamento do esgoto, armazenamento correto da água, reciclagem e destino do lixo. População e empresários devem ser alertados a dominarem sua voragem consumista e produzir menos lixo; e serem responsabilizadas pelo descaso com seus imóveis, afinal direitos coletivos se sobrepõem aos individuais e não é função do poder público ficar limpando quintais particulares.

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