Livros & dores

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unnamed (7)Quando achei que seria capaz de escrever um livro “sobre a dor”, vieram-me à memória os inúmeros livros que já lera na vida. Aprendi algo com eles? Creio que sim. Comecei a ler muito cedo e, ao terminar a Escola Normal, aos 18 anos, eu já tinha lido quase todos os bons autores brasileiros e toda a trilogia “O Tempo e o Vento”, de Érico Veríssimo, pela qual me apaixonei. Aprecio os romances e biografias, mas textos na primeira pessoa e relatos autobiográficos são os que mais me fascinam.

Nos anos 80, editei uma coluna literária num jornal local e as editoras me presenteavam com livros: literatura brasileira e estrangeira, poesia, psicoterapia, publicações diversas, coleções, lançamentos especiais que eu ia devorando dia após dia. Aquilo caía do céu direto às minhas mãos.

Ao me mudar da cidade para o campo, em 2002, tomei uma decisão dolorosa: vendi quase tudo para um sebo, pois a nova casa não dispunha de armários e eu não pretendia colocar prateleiras para acomodar os milhares de livros. Recém-operada da segunda cirurgia na coluna, lidar com aquela montanha de obras significava um trabalho impensável para mim.

Quando estava no hospital, em dezembro de 2005, na terceira cirurgia de coluna, minha filha mais velha deu-me de presente “Quase tudo”, de Danuza Leão. Foi o que me salvou naquela semana tão triste, entre o Natal e o Ano Novo, esperando o médico me dar alta, deitada quietinha, rezando. Danuza nunca saberá o que este livro significou para mim naqueles dias sombrios. Chorei com ela, chorei as suas perdas, sofri as duas dores. Abracei-a em pensamento tantas vezes.

Deitada, quando a moça da copa chegava cedinho com a bandeja, eu me virava sozinha, sem poder erguer a cabeça. Pedia à moça para colocar o leite e o café na xícara. Ela me ajudava, sempre gentil, perguntando: “Que mais?”. Eu dizia: “Só isso, linda, obrigada”. A mesinha ao lado ficava muito acima de mim, e tentava imaginar onde estava a bolacha água e sal, a manteiga, a geleia, a colher, o garfinho… E ia dando um jeito de trazer a xícara até minha boca, comer uma bolacha, uma fatia de mamão. Colocava uma toalha do hospital como um babador sobre o meu peito, caso viesse a derramar alguma coisa.

Queria tomar logo o café, para continuar a ler o livro de Danuza. Quando chegavam as enfermeiras do banho, eu louvava a Deus, relaxava com a delícia dos lençóis frescos, a cama refeita, a camisola limpa. Depois, retomava a leitura, até à hora do almoço. O livro ficava do meu lado, junto com os óculos, tudo meio apertado ali na cama, ao lado do controle remoto da tevê, o terço, a medalha de Nossa Senhora das Graças, o celular. Às vezes, uma destas coisas ia parar embaixo de mim, enrolado nos lençóis, e eu tinha de chamar uma enfermeira para me ajudar a encontrar.

Tenho certeza de que a história de Danuza não se esgotou neste “Quase tudo”, e ali está o “quase” em grande suspense. Não sabemos se ela vai escrever algo como “Agora está tudo aqui”, mas certamente deixou uma inteligente brecha para um próximo livro do gênero.

 

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