Luzes que se apagam…

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unnamed (1)Há uma música linda, de Charles Chaplin, “Luzes da ribalta”, que me toca fundo o peito, o coração e a alma. A tradução da música para o português refere-se às ilusões, às vidas que se vão, às luzes que se apagam com o decorrer do tempo. Vidas que se acabam a sorrir, luzes que se apagam, nada mais.

Diz a letra também: o que passou não voltará jamais. No retrovisor do tempo, identifico tantas pessoas admiráveis, consumidas no amor, almas devotadas que partiram acreditando no que faziam. Vidas cheias de fé, ainda que muitas sentissem apenas o vazio e a escuridão dentro de si.

Na minha carruagem de sonho, refaço um trajeto amado, a mocinha descendo a rua Governador rumo à faculdade. Havia no céu uma estrela enorme e inquietante no início do inverno, que a seguia até a entrada do prédio. Deixava lá fora a estrela peregrina. Terminada a Pedagogia, o curso de Orientação Educacional. E depois de casada, a faculdade de Jornalismo.

A alma sempre ávida de conhecimento queria estudar, estudar, estudar. Nunca parar de estudar. A Filosofia a chamava nos livros e nas horas de profundos conflitos existenciais sem respostas, sem janelas, sem portas e sem passagens secretas. O secreto ficou guardado no terraço florido e nos bancos de madeira com pés de ferro. Num baú imaginário, de onde ela ainda pretende tirar coisas boas.

Para que chorar o que passou, lamentar perdidas ilusões? – pergunta a letra dolorosa e a melodia mais ainda. Consolador será saber que nossos ideais renascerão em outros corações. A roda da vida deve girar, transformando e criando novas formas de amor, de contato, de bondade, de esperança. A tecnologia não substituirá o abraço ao vivo.

A juventude é um sonho que as mãos querem segurar. Mas ele precisa ser vivido, buscando cumprir-se a cada momento, apesar da dor, da luta e do sofrimento. “Ninguém quer a morte, só saúde e sorte”, diz outra canção inspirada. Inspira-nos o canto das alvíssaras, anunciando a alegria. Mas existe o contrabalanço da tristeza, da amargura e da solidão. O que passou está guardado na caixa recheada de cartas maravilhosas, unidas por um laço de fita; em alguns cartões postais preciosos; nas fotos emolduradas nas paredes; na sala de jantar hoje silenciosa; nos porta-retratos tão vívidos e tão eternos.

Vidas que se acabam a sorrir. Luzes que se apagam, nada mais. Quantos sorriram até o final de suas existências, sabedores da morte iminente, pegando em nossas mãos trêmulas, antevendo o adeus? Demos o melhor de nós a cada um, avó, pai, mãe, cônjuge, parente, amigo. A muitos acompanhamos solidários na amizade, quando foi preciso o afeto e a presença.

Não nos falte jamais a certeza de termos sido companheiros e generosos, nesta solicitude extremada que a vida nos pede em algumas horas cruciais. Ontem, vi vidas se acabando e sorrindo, luzes apagando-se aos poucos num longo trajeto final; outras que se precipitaram na partida, abrupta e fatal. Hoje, sou eu, faço parte de uma geração que lentamente se apaga e fenece. À luz de profecias promissoras, ao som de “Luzes da Ribalta”.

 

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