Madiba

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“O tirano morre, e seu reino acaba. O mártir morre, e seu reino começa”. (Sören Kierkegaard). Nelson Mandela joga agora no time dos imortais. Conseguiram, seus algozes, forjar um líder, que uniu brancos e negros. “Não posso esquecer, mas posso perdoar” dizia. Mandela vive porque ninguém, por mais poderoso que seja, consegue matar ideias. “Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma” (Mt 10,28). O legado que deixa aponta para a fraternidade, a justiça e a paz: tudo o que a humanidade mais precisa; por isso sua morte é comemorada com danças e abraços, afinal Madiba driblou o ódio fazendo-se conciliação.

Segundo informações da grande imprensa, Mandela nasceu em 1918. Tornou se conhecido mundialmente pela sua luta contra a segregação imposta à maioria negra pelo governo sul-africano, controlado por minoria branca durante quase meio século. Em 1960 a polícia sul-africana matou pelas costas mais de 70 opositores e em 1976 mais de 700 estudantes. Mandela era chefe da ala armada do CNA, que estava inteiramente disposta a recorrer à violência. Acusado de sabotagem, foi preso e ficou confinado por 27 anos. Na prisão estudou direito e aprendeu africâner, a língua dos brancos, para dialogar com eles. “Saiu em 1990 para apertar a mão de Klerk, então presidente do regime de apartheid, que, quando começou a acabar, em 1994, havia no país 750 mil piscinas, uma para duas famílias brancas, ao passo que, 10 milhões de famílias negras não dispunham de água potável em suas habitações”. (Clóvis Rossi – Folha 06.12.13).

Segundo seu amigo Desmond Tutu “O período na prisão foi importante para ele perder a raiva.” Seu gesto conciliador e tolerante garantiu-lhe o Prêmio Nobel da Paz junto com De Klerk. Em 1994 foi eleito o primeiro presidente negro da África do Sul. Fez a transição da segregação para uma democracia racial de forma pacífica, embora a violência comum fizesse 50 mortes por dia. Em 1999 transfere a presidência para o vice Mbeki e se aposenta da vida pública. Morre em 2013 aos 95 anos em Johanesburgo.

“Aquele que quiser salvar sua vida, vai perdê-la…” (Mt 16,25). Plenamente intensa, a vida de Mandela, especialmente após a prisão, foi um hino à tolerância. Foi o 1º membro de sua família a freqüentar escola, onde ganhou o nome inglês de Nelson. Estudou cultura ocidental e fez treinamento militar no Marrocos. Na prisão soube lidar com seus algozes. Entre Nobel da Paz e de Direitos Humanos recebeu mais de mil prêmios. Casou-se três vezes. Teve seis filhos, 17 netos e 14 bisnetos.

É claro que deve ter cometido muitos erros, porém não errar está mais para covardes que para audaciosos, afinal, segundo Desmond Tutu “Se ficarmos neutros numa situação de injustiça, teremos escolhido o lado do opressor”. Acontece que nada pode ser modificado sem que seja enfrentado e “ninguém comete erro maior do que não fazer nada porque só pode fazer pouco” (Edmund Burke). Os omissos nunca têm razão.

Vejo muitas pessoas dizendo que o mundo está perdido; que o Brasil não tem mais jeito e que a maldade tomou conta de tudo. Esquecem que o mal vem de dentro e, se não conseguimos extirpá-lo nem dos nossos corações, exigir o quê dos outros? Essas pessoas se julgam dignas de um mundo melhor, mas não movem um dedo para tal nem em sua própria vida, família, rua, bairro, empresa, etc. Querem que os outros melhorem. Eles mesmos permanecem individualistas e oportunistas. Por nada descem da arquibancada. Fechados em suas casamatas e condomínios nunca perceberão que o mundo melhora a cada dia. Contudo essa gente nem pelo vizinho se interessa.

Para eles mando o recado de Ana Paula Maciel, ativista do Greenpeace detida por dois meses na Rússia: “Se eu estivesse sentada, na comodidade do meu sofá, na minha casa, nada disso teria acontecido. Mas, ao mesmo tempo, nada teria mudado…”.

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