Mudança de época

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Coisa que pouco aguento é ver televisão, exceto alguns programas em canais educativos ou similares. Grosso modo, acho a programação da tevê comercial um saco. Respeito meu espírito, por isso evito expô-lo ao ridículo. O pouco que assisto já me deixa frustrado.  A vida é curta, o tempo urge. O que a tevê mostra na tela prefiro descobrir na vida. Não que todos os programas sejam ruins. As pessoas gostam de ver TV, especialmente as solitárias. Existe muita coisa boa – ainda que de cunho tendencioso e conteúdo superficial.

De resto, temos novelas das três, cinco, seis, sete, nove, etc. Antes eram histórias de amor. Hoje, a maioria delas explora o lado podre do ser humano: sexo irresponsável, violência, vingança, traição, vadiagem e banalização da vida. Só no último capítulo o bem chega para botar ordem na zona e compensar a consciência dos que, com sua audiência, sustentam os lucros das emissoras. Tempo precioso jogado fora. Poderia ser aproveitado com boas leituras, no cuidado de si, na participação na vida dos filhos, no bate papo com os vizinhos e amigos e mesmo numa vida comunitária mais fecunda.

O humor é chulo e apelativo; quem ri é a gravação. E filmes? Em grande parte deles o revólver é ator principal. Tiro, sangue, explosão, fogo, carros voando, polícia, bandido, vingança; o diabo. Sociopatas de armário adoram. No fim chega o herói que tudo resolve usando da mesma violência que veio combater. O crime dá mais audiência que a virtude. Tanto que para deleite de masoquistas, ridículos apresentadores teatralizam o que deveria nos envergonhar. Pintam um mundo bruto, quando dentro das casas está a violência maior.

Nos campeonatos de futebol, manda a obsoleta Globo. Esvaziou os estádios empurrando noite adentro os horários dos jogos para que ao torcedor não reste escolha senão a tevê, donde vem seu lucro astronômico. “Globo e você, tudo a ver”. E como!

No entanto, a televisão é tida como membro da família, e a meu ver, ela reflete a sociedade em que vivemos. E no momento retrata o crepúsculo de uma época. Raros cada vez mais são os artistas de verdade, humoristas, cantores e compositores; atletas puros, políticos estadistas, cientistas altruístas e religiosos de referência. Até os bandidos de hoje são repugnantes. “Quando homens pequenos lançam grandes sombras, é porque a noite está chegando”. (Nathaniel Lee).

Protagonizamos o fim de uma época. Capenga o capitalismo, o comunismo morreu. A Europa se arrasta. Os EUA bebem do próprio veneno. A sede da China por dinheiro devora a vida de seu povo. Religiões não passam crédito. A Escola perdeu o rumo. O planeta está exausto. Cidades viraram arapucas; corrupção é regra.  Medíocres e estúpidos governantes matam crianças como moscas, porque só grandes estadistas pagam o preço que vale a paz. O sistema que repudia a solidariedade e valoriza os espertos e inescrupulosos agoniza carcomido pela violência que gerou.

Estamos no limiar dum novo tempo. “Sinto entre os espinhos o perfume da rosa que está para desabrochar” (Santa Catarina de Sena). Segundo Einstein “Para a sobrevivência da humanidade vamos precisar de um modo de pensar inteiramente novo”. Mãos à obra, portanto. Chegou a hora. A nova época não cairá do céu. É fruto de quem está atento sabe ler os sinais dos tempos. O preço do ‘sucesso’ tornou-se ridículo. Riqueza, individualismo, poder, arrogância, autosuficiência, corrupção, carrões, condomínios fechados vão virar coisas desprezíveis, coisas de gente ultrapassada.

Ergamos a cabeça e abramo-nos para o novo que desponta no horizonte, pois “A fé é o pássaro que sente a luz quando o alvorecer ainda é noite” (Rabindranath Tagore).

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