Mundo mágico

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downloadNa infância, interagimos constantemente com o “mundo mágico”. Ficamos longo tempo observando o lento caminhar de uma lagarta, o vai e vem das formigas cumprimentando-se ao se cruzarem, tocando-se com as anteninhas e conseguindo transportar folhas e gravetos bem maiores do que elas.

A chuva, para uma criança, é um espetáculo à parte. Dá vontade de correr sob ela sentindo os pingos gelados na face até encharcar os cabelos, caminhar pelas enxurradas imaginando-as um rio caudaloso.

Lembro-me de certa vez, lá pelos 5 ou 6 anos, ter presenciado uma chuva de granizo e conseguido capturar uma pedrinha de gelo que ficou intacta no gramado do quintal. Coloquei-a na boca e me senti nas nuvens, pois estava degustando uma pedra de gelo lá das bandas dos anjos e arcanjos, um gelinho que caiu direto do céu!

Penso que as crianças, por estarem ainda impregnadas do divino que acabaram de deixar para virem ao mundo, se extasiam com sua essência, mas à medida que vão crescendo, e se tornando adultos, vão perdendo essa conexão e se distanciam do mundo encantado. Então, ficam com nojo das lagartas, não enxergam arco-íris no caldo da sopa, pisam nas formigas e fogem da chuva por medo de pegarem resfriados. Pronto, acabou-se o encanto. Adentra-se ao obscuro, insosso, estressante e competitivo mundo dos adultos.

Só quem tem alma de poeta consegue permanecer no mundo mágico que as crianças habitam e os loucos frequentemente visitam.

Gosto de fazer caminhadas bem cedo, quando o ar ainda está fresquinho e dá para sentir o perfume do mato umedecido pelo orvalho da noite.

Outro dia, ao iniciar a caminhada, vi uma lagarta se contorcendo numa pequena poça de água no cimento. Antes que se afogasse ou alguém a esmagasse, peguei-a com o auxílio de uma folha e coloquei-a num lugar seguro em meio às folhagens. Prossegui feliz em minha caminhada pensando: “salvei uma borboleta!”. Muitos poderiam dizer: “e daí? São milhões de lagartas neste planeta!”. Mas para ela, eu fiz a diferença.

E assim, as crianças crescem e ao se tornarem adultas, vão perdendo a capacidade de se extasiarem com a beleza das coisas simples da vida. E tudo passa a ser complicado. A mente se ocupa de negócios, de cifras, de porcentagens, de cotação de moedas, e fica tão cheia que nada mais cabe. Os olhos se tornam cegos, os ouvidos não ouvem, o olfato nem sente os perfumes da natureza, só farejam dinheiro. A boca não recita versos e nem canta cantigas que faziam parte do “mundo mágico”.

Mas quando os adultos se tornam avós, algo extraordinário acontece. O “mundo mágico” vai reaparecendo. Reaprendem com os netos a enxergar as belezas da vida, a ouvir estrelas, a brincar com lagartas e formigas e a correr na chuva. O arco-íris volta a colorir o caldo da sopa e o tempo parece não correr tão depressa.

Pena que o encanto da vida, tão presente no início, só volte nos últimos passos da jornada. Quanto tempo é desperdiçado com futilidades, guerra de egos, disputa de poder, ganância e vaidades tolas.

O Pequeno Príncipe estava certo quando dizia: “O essencial é invisível para os olhos. Só se vê bem com o coração”. No desenho dele, “pessoas grandes” enxergavam um chapéu, mas as crianças viam claramente a jibóia engolindo um elefante. Conclui-se que só quem vive no “mundo mágico” sabe decifrar desenhos infantis.

Viver no “mundo mágico” é enxergar com os olhos da alma, é ser eterna criança.

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