Museu Prudente de Moraes em Piracicaba

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foto de Verônica Boni

“Sou Prudente no nome, prudente por princípios, e prudente por hábito. Sou também prudente, procurando evitar questões pessoais e odiosas.” Prudente de Moraes.

Prosseguindo minha pesquisa sobre a história do ensino superior em São Paulo, visitei o Museu Prudente de Moraes em Piracicaba, para entender um pouco mais sobre as condições sociais e econômicas da época na Província de São Paulo, que serviriam de berço ao nascituro ensino superior paulista.

Na oportunidade da visita, fui muito bem recebido por Alexandre Lopes e Eduardo Ferraioli Ducatti, dedicadíssimos componentes da equipe da diretora do museu Maria Antonieta Sacs Mendes.

O museu funciona desde a sua fundação em 1957, na casa que foi residência de Prudente. Concluída em 1870, foi palco de grandes manifestações políticas da época da proclamação da República.

Como veremos, o ituano Prudente de Moraes liderou o pensamento republicano e liberal da época, desempenhando importantes cargos públicos e vindo a ser eleito o primeiro presidente civil da jovem república brasileira. Foi ainda, o primeiro político a representar os paulistas no cenário federal.

À magistral figura de Prudente de Moraes coube a missão de ser o primeiro presidente civil da República brasileira, no ano de 1.894. Hercúlea missão. O Brasil vivia uma sequência de golpes e contragolpes, revoluções e contrarrevoluções e os dirigentes do país esforçavam-se para estabilizar o novo regime e vencer a oposição ferrenha dos monarquistas. Seu governo foi pontuado por graves conflitos civis e diplomáticos, como a destruição do arraial de Canudos e a Revolução Federativa do Rio Grande do Sul. Além disso, outras dificuldades igualmente sérias como uma enfermidade que quase o obrigou a renunciar, e o grave atentado que sofreu em 1.897, que quase lhe tirou a vida e que vitimaria seu Ministro da Guerra Carlos Machado Bittencourt, fizeram do seu governo um dos mais difíceis da história.

Os temas abordados por Prudente revelam-se ainda muito atuais: igualdade racial, liberdade política, unidade federativa, correção e superioridade dos valores republicanos, necessidade de controle orçamentário, autonomia entre os poderes constituídos, relações internacionais baseadas na cooperação e no pacifismo.

É uma pena que tudo isso aconteceu há muitos anos, e a maioria dos textos são magros: citam apenas alguns fatos crus e nada mais. Assim, com o auxílio de algumas fontes, teremos uma história provável, mas os elementos essenciais são verdadeiros.

Curiosamente, há exatos 33 anos antes da posse de Prudente, do outro lado do mundo, outro ilustre personagem chamado Abraham Lincoln enfrentou problemas semelhantes, quando assumiu a presidência dos Estados Unidos. Igualmente realizou um dos governos mais difíceis dos Estados Unidos. Encontrou um país dividido pela guerra da secessão. Tal qual Prudente, superou todos os obstáculos com grande êxito, mas pagou um alto preço: a própria vida.

É bem verdade que as realidades eram diferentes e distantes, mas as coincidências entre os dois estadistas não são poucas: ambos eram advogados, ambos foram destacados governantes, ambos enfrentaram guerras e revoluções em seus governos, ambos sofreram atentados mortais, ambos eram abolicionistas e ambos foram aclamados heróis depois da morte.

Estas coincidências trouxeram-me uma dúvida: se Prudente de Moraes teria fundamentado seu governo nas diretrizes e metas do governo de Abraham Lincoln. Trataremos disso num outro artigo, prometo.

Prudente integrou a turma de 1.859-1.863 da Academia de Direito de São Paulo, Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Nesta mesma turma estudaram Bernardino de Campos, Francisco Quirino dos Santos, Theophilo Ottoni, Francisco Rangel Pestana e Manoel Ferraz de Campos Salles e outros estudantes engajados nos movimentos abolicionistas e republicanos.

Concluídos os estudos, Prudente se lamentava em carta dirigida ao seu irmão: “Estou – finalmente – Bacharel formado em Direito. Está acabada minha vida de estudante e desde já estou sentindo muito, muito e muito deixá-la.”

Em Piracicaba onde Prudente atuava como advogado, descobriu também a vocação política elegendo-se deputado provincial e depois à Assembleia Geral do Império, representando o Partido Republicano, no qual ingressara em 1.876. Proclamada a República, foi o primeiro governador do Estado de São Paulo, Senador ao Congresso Constituinte, e presidiu os trabalhos de elaboração da Constituição de 1.891.

Precocemente, em 1.865, com apenas 23 anos, foi eleito vereador e presidente da Câmara Municipal de Piracicaba. Dois anos depois se elegeria Deputado Provincial por São Paulo. Nomeado primeiro Presidente do Estado de São Paulo em 3 de dezembro de 1.889, ele concorreria ao Senado em 1.890 e foi eleito.

Em 1.894, elegeu-se o primeiro presidente civil da República dando início a chamada “República dos Bacharéis”. Em verdade os bacharéis sustentaram o ideário republicano, em cuja campanha persistiram até lograrem êxito, sempre atuando com prudência e moderação.

Prudente sofreu um atentado em 05 de novembro de 1.897. Nesse dia, Prudente estaria no Arsenal da Marinha, na Praça Quinze, recepcionando o general Silva Barbosa e dois batalhões da coluna que combateram em Canudos. O anspençada do Décimo Batalhão de Infantaria, Marcelino Bispo de Melo, disparou contra o presidente a arma que tinha na mão direita, enquanto na esquerda, segurava uma faca. Por sorte, o disparo não atingiu Prudente. Ato contínuo, o coronel Mendes de Morais golpeou com a espada o agressor que, mesmo derrubado, ainda conseguiu esfaquear mortalmente o marechal Carlos Machado Bittencourt. O atentado devolveu ao presidente a simpatia popular e o apoio dos parlamentares, que aprovaram o estado de sítio.

A primeira ideia dos assassinos era a de alugar uma casa no Catete, de onde o presidente seria alvejado quando passasse pelas ruas do bairro. A segunda, posicionar um certeiro atirador no morro mais próximo para atirar no presidente quando se postasse – como fazia todas as manhãs – à janela do palacete presidencial, para, enrolando o seu prosaico cigarro de palha, ler o jornal do dia.

Prudente de Moraes assumiu a presidência da República em 15 de novembro de 1.894 em condições dramáticas, num ambiente de hostilidade e ameaças, não merecendo de Floriano Peixoto um cumprimento sequer. A sede do governo era o Palácio do Itamaraty, na Rua Larga de São Joaquim.

Em 24 de fevereiro de 1.897, ocorreu a inauguração da nova sede do governo brasileiro, o Palácio do Catete pelas mãos do vice-presidente em exercício, Manuel Vitorino Pereira, uma vez que Prudente de Moraes, muito doente, licenciara-se desde o dia 11 de novembro de 1.896 para recuperar-se de uma intervenção cirúrgica para extração de cálculos da bexiga. O estado de saúde delicado do presidente provocou uma série de boatos e alguns oposicionistas aconselhavam a sua renúncia.

Sentindo-se dono do poder, Manuel Vitorino, o vice-presidente, instalou o governo na nova sede promovendo uma grande recepção às autoridades e ao corpo diplomático, tentando apossar-se do poder. Contudo, não obteve êxito.

Prudente ocupou o Palácio do Catete de 04 de março de 1.897 a 15 de novembro de 1.898. Iniciou o mandato no velho Palácio do Itamaraty e ao empossar-se na presidência recebia um país combalido pela crise financeira, convulsionado pela guerra civil e ameaçado pela ideia do retorno à monarquia. A crise da agricultura e o movimento de Canudos agravavam ainda mais a situação.

Politicamente, o mandato de Prudente também enfrentava dificuldades. O Partido Republicano Federal, que fora a base de sua vitória nas eleições presidenciais, afastou-se do presidente. Os Estados menores não aceitavam pacificamente o domínio de São Paulo sobre o governo federal. As camadas urbanas e algumas facções militares, especialmente aquelas ligadas ao florianismo, opunham-se ao seu governo. A tensão culminou com o atentado a Prudente de Moraes.

No último ano de mandato, Prudente de Moraes negociou a consolidação de todos as dívidas nacionais numa única dívida – o funding-loan – que seria liquidada a longo prazo, à custo de altos juros, e preparou o terreno para o governo de Campos Salles, que consolidou no poder a oligarquia dos cafeicultores.

Bastante fortalecido no período final do governo, ao entregar o cargo, Prudente deixou o Palácio do Catete acompanhado de uma multidão que o levou à pensão Beethoveen, no Largo da Glória, onde reservara aposentos.

Prudente entregou o cargo ao sucessor Manoel Ferraz de Campos Salles em 15 de novembro de 1.898. Deixava ao novo presidente uma sede elegante e muito bem cuidada. Além disso, fez questão de que a posse do seu sucessor se revestisse de pompa. Em todo o trajeto para o Senado e depois para o Catete Campos Salles e Rosa e Silva foram ovacionados e acompanhados por um piquete de cavalaria. O povo, que pela primeira vez, assistia a uma solene transmissão de governo, aplaudia e dava “vivas” aos novos detentores do poder. No salão Liberdade, os dois paulistas se abraçaram e trocaram discursos protocolares.

Ao aproximar o final do mandato presidencial, Prudente encaixotou os pertences da família distribuídos nas dependências do Catete e na casa do Morro do Inglês, Rio de Janeiro, e despachou-os para Piracicaba.

Ao deixar o cargo em 15 de novembro de 1.898, Prudente foi aclamado pela população como “propagandista de República” e “pacificador”.

Para nossa honra e orgulho, a biblioteca pessoal de Prudente de Moraes encontra-se em Itu, na Casa Barão, que é parte integrante do Museu Republicano de Itu, sob os cuidados da USP. Este riquíssimo acervo, é parte do meu material de pesquisa, e contem aparentemente todos os livros e anotações que Prudente reuniu em vida.

Seus restos mortais estão sepultados em Piracicaba, conforme seu desejo.

Proponho reunirmos as forças vivas da nossa comunidade e criarmos o Memorial Prudente de Moraes, ao estilo do memorial construído em homenagem a outro grande estadista brasileiro, o Presidente Juscelino Kubitschek, que governou o Brasil de 1956 a 1961, quando construiu Brasília e fez o Brasil progredir cinquenta anos em cinco. Bom, mas isso também é assunto para outro artigo.

EDSON BONI

Fontes:

– Livro Prudente de Moraes discursos e mensagens, de Raquel Glezer e Jonas Soares de Souza, 2003.

– Museu Histórico e Pedagógico Prudente de Moraes, Piracicaba, SP – www.museuprudentedemoraes.piracicaba.sp.gov.br

– Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil de 24 de fevereiro de 1891. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao91.htm

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