Nada de novo no front

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chinelo   Não há nada de novo no fundo do mar. Não há nada de novo sobre a Terra. Tudo sobejamente conhecido, esquadrinhado, detalhado, definido, catalogado. Onde haverá um último mistério a ser desvendado? Somente dentro dos corações, talvez, pois o coração humano é um poço de segredos e de coisas irreveladas.

Não há nada de novo sob o sol. “Tudo é vaidade e  vento que passa”, diz o Eclesiastes. Desejaria tanto encontrar alguma coisa novíssima, estupenda e colossal, para ficar eternizada em nossas retinas. Algo assombroso e avassalador, que nos tirasse do sério, que nos deixasse de boca aberta, que nos fizesse parar. Ou pirar. É só mudar a vogal.

Não há nada de novo na televisão. Os programas se repetem e se desgastam, suas fórmulas se esvaziam.  Tenta-se a apresentadora que um dia foi famosa, mas também não funciona muito bem, falta total de conteúdo. Aguardamos a vida inteligente na nossa tevê.

Tem algo novo por aí, meu anjo? Você sabe de algo que a internet ainda não tenha trazido à luz? À luz da nossa existência que gira em torno da rede mundial, inexoravelmente? O que seria de nós sem o Google, a esta altura do campeonato?

Quero ver um sinal no céu, além dos que já tenho visto. Quero ver a Alva que precede a Aurora. Quero ver o Aviso de Deus ressoar pelos quatro cantos do mundo. Quero ver os Novos Céus e uma Nova Terra. Uma incontável multidão anseia por eles. Tudo novinho em folha, saído das mãos do Criador, um presente divino para os homens. Ai desta espécie ingrata, se não souber agradecer a maravilha que Deus tem sonhado para nós.

Nada de novo no front, além dos aviões de carreira. Era essa a frase? Segundo uma letra do Belchior, o novo sempre vem e daí… Não lembro mais. Mas acho que ele pretendia dizer que o novo acaba imperando. E o que era velho desaparece.

Quem já viveu meio século como eu vivi, pôde ver algumas coisas virem e irem-se, sumindo da nossa vista. Quem se lembra do conjuntinho de ban-lon? A saia pregueada de tergal? A camisa “Volta ao mundo”? O perfume “Lancaster”? Cadê um LP? Um 78 rotações? E a vitrola, o toca-discos? A bebida chamada “Cuba libre”? Alguém sabe dançar o “twist”? Gente do céu, quanta coisa veio e se foi num rabo de foguete. Tanta coisa velha e ultrapassada, que fez furor um dia.

O que faz furor hoje? Os celulares estupendos, as tevês imensas, os carros que só faltam voar, as tecnologias assombrosas. Contudo, nem que a Madonna, o Ricky Martin ou a Lady Gaga façam uma declaração de arrasar quarteirão, nada mais pode nos arrebatar. A emoção está congelada numa cena de Spielberg e fica por conta do solo particular de cada um.

Falando nisso, ainda me encantam os boleros, Luiz Miguel, Trio Los Panchos, Ray Conniff, os tangos, as valsas, a pintura, a poesia, aquela literatura que a gente lê com o coração aos pulos. Ainda me estremecem os poemas de amor, alguns mistérios e revelações feitas com a pureza do medo.

E se alguém souber de uma bela novidade, um astro vindo em direção a Terra, alguma flor recém-catalogada, um peixe exótico, uma ilha nova, passa um e-mail pra mim?

 

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