Neste Natal

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IMG_6471Neste Natal, procurei os olhos do meu amor e eles não estavam lá… Não estava em parte alguma o olhar capaz de transmitir tanta poesia. Não havia nada em seu lugar, a não ser uma profunda névoa, na tarde da despedida. Os olhos se fecharam, as pálpebras se uniram, coladas pelo peso da finitude humana.

Neste Natal procurei um carinho à beira da cama, num gesto de quem dá a última colherada de comida – e ele estava lá -, escondido por entre as dobras de um tempo que pareceu uma eternidade, mas passou voando. O Natal chegou e ninguém viu, nem os olhos do meu amor que se fecharam para sempre.

Neste Natal, procurei uma flor, uma vermelha, como o meu amado gostava. Uma flor que simbolizasse a beleza da vida, o fogo da paixão, a força das lutas, o sangue dos mártires, o coração pulsando o vigor da saúde, o tapete vermelho por onde passam as celebridades. A legitimidade das intenções, a coragem, a ousadia, a fé – a certeza do que se está fazendo.

Neste Natal, procurei pelo prodígio, capaz de reverter a dor do nome agora gravado numa placa reluzente – memória de quem existiu. Chamei o meu Anjo, pedi ajuda, e tive de aceitar a representação da ausência, a insondável certeza de um adeus, passagem secreta nas mansões do pensamento.

Neste Natal, procurei um presente para o meu amado, mas ele já não está entre nós e não pode recebê-lo. Contudo, o presente está dentro do meu coração, no juramento de amor eterno, até que a morte nos separe, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. Um amor que se eterniza a cada dia que passa, guardado numa caixa embrulhada com papel de estrelas e flores, que termina num laço dourado – o sonho de viver e de amar.

Neste Natal, procurei algo que eu não sabia o que era e era de uma beleza imensa. Fragmentos de impressões voláteis, visões do nunca mais, de olhar e não ver, de ver e não enxergar. Onde está? Por onde andou? Vai voltar? Ah, esta permanência com cheiro de perfume masculino, a indefinição devoradora. De onde vem o sentimento etéreo de que ainda há algo a ser dito, a ser feito, a ser cumprido? Falta a viagem a uma ilha encantada, a um lugar inesquecível, onde a vida seja eterna.

Neste Natal, procuro por respostas e minhas perguntas ficam suspensas entre o céu e a terra. Espanto, delírio, fraqueza. Mas, o espírito está firme e forte, porque meu amado era assim. Era uma fortaleza onde a gente podia se abrigar.

Neste Natal, procuro por objetos no criado-mudo que ainda é dele. Pelas gavetas, bem guardados, seus óculos de grau. O ray-ban dentro do estojo original. A carteira de couro preto, com o CIC e o RG, algumas fotos 3×4, onde seus olhos me perguntam: tudo bem? Sim, eu vou bem, estou aqui acariciando seus pertences, os papéis com sua letra, sua coleção de moedas antigas, seu relógio, suas coisas, que preservo para beijá-las sempre, meu anjo.

Encontro nossa foto, juntos, eu recostada em seu ombro, era a festa do Natal de 2007.  Você começava a emagrecer, a roupa estava ficando larga em seu corpo e eu te abraçava para reter em meus braços a sua doçura.

Neste Natal, celebro a sua vida. Dou graças por nossos momentos. Pelas missas de Natal a que assistimos juntos.  Revejo nossas fotos. Numa delas, especialmente carismática, você está sorrindo, antevendo a delícia do rocambole recheado de chocolate. Brindo a nós dois, na taça que transborda de saudade. Ainda estou aqui para celebrar. Você no retrato; eu na esperança.

Neste Natal, o que sinto não tem nome. E assim será a cada dezembro – o infausto mês da sua partida. Tento acompanhar seu trajeto para a glória, vasculhando o vazio que habita os cantos da nossa casa. E minha alma bate de frente com a sua. É você que procuro neste Natal.

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