No baile da vida

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A vida me ensinou a reconhecer os erros e a aprender com eles. Esta é uma lição infinita porque erramos todos os dias e, às vezes, o estrago é irreversível. Mas, ai, por que não podemos, apesar de fortes no aprendizado, transgredir só um tiquinho?

Lembro-me de um bailinho da juventude, o animador anunciou no microfone que “agora é dama tira”. Muita gente não sabe o que é isso. É quando, num momento do baile, é permitido à dama convidar o cavalheiro para dançar. Imagine se nos meus 16 anos iria perder essa!

Minhas amigas não se arriscaram. Decidida, fui logo convidando o moço mais lindo do salão. Ele agradeceu, estava vindo de uma pescaria e lamentava por cheirar a peixe. Falei que não me importava. Jura? Nem um pouco. Então dançamos, foi bom demais e nos despedimos com ele dizendo: “Quero dançar com você de banho tomado, na próxima vez”. Tá bom.

No baile da vida, temos escolhas a fazer e coisas a dizer. Você já se abriu de verdade, caro leitor, cara leitora? Refiro-me a questões de toda ordem, sejam afetivas ou não. Já fez um desabafo necessário, daqueles de ficar mais leve, depois de pôr para fora algo que lhe pesava terrivelmente sobre os ombros, ou sobre o coração?

Talvez a expressão correta não seja esta, “sobre” e sim “dentro” do coração. Ah, o que todos nós guardamos neste valioso órgão propulsor! Costuma-se dizer que “Deus sonda os corações”. Só Ele conhece-nos por inteiro, as motivações, os segredos, as dúvidas cruéis, nossos desejos, sonhos e esperanças.

Dia destes, ouvi no rádio: “A ética é filha da humildade, que é irmã da sensatez”. Os antigos diziam que “bom senso e canja de galinha nunca fizeram mal a ninguém”. Vi uma reportagem na tevê, onde a mãe dizia curar a gripe da família toda com uma bela canja.

O que não faz uma abençoada sopa para o inverno!  Faço-a com peito de frango mesmo. Minha sogra fazia a legítima, com galinha. Fica um pouco mais substanciosa e com uma cor linda, meio amarelada, saborosíssima! A canja que aprendi com minha mãe sai boa também, sobretudo se acrescento pedaços de mandioca.

Bem, mas o que têm a ver a prudência e a canja com desabafos do coração? Tudo a ver. A canja serve de unguento alimentar para a latejante chaga, depois de uma mal sucedida abertura de alma. Cura-se a dor com um bom prato da sopa fumegante. Queijo parmesão ralado por cima e torradas com creme de ricota. Já a prudência, essa é soberana em toda e qualquer questão.

Bem, a vida é muito mais que um prosaico bailinho na hora da “dama tira”. Isso é muito pouco para os atrevidos. Há outras ousadias bem mais atraentes, sem que resultem num Boletim de Ocorrência. Podemos ser prudentes até mesmo na audácia de uma loucura, ou nos momentos solenes e belos em que julgamos seguir a nossa estrela. Onde está ela?

Então. Como tenho uma alma com tendências ligeiramente transgressoras, escolho sempre o caminho perigoso. Meu lindo me alertava: “Cuidado, você ainda vai cair do cavalo”. Justo eu, que nunca pratiquei esportes equestres e nem sei cavalgar…

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