O mar e eu

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Numa viagem recente, fui ver o mar, oceânico dono de mim. Pisei numa praia linda, senti o calor das areias. Sonhei. E repito aqui meus versos plenos de amor.

Mar, identificado o teu perfil, ali fundear meu coração marinho. Minha alma, um navio insubmergível, rompendo a textura da água.

Onde começa tua genealogia? Deus criando a vida? Ares se condensando, vapores, fumegante paisagem do tempo. Crescente plano de águas, fervuras, matriz de rendas brancas.

À tona, a luminosidade, límpida evidência de cores, marulhares. No desvão das marés, a densa história de tua aventura. Que é mito, saga, água. Fértil de naturezas, pródigo de intimidades, na pele de tua superfície, quem mergulhou o mais fundo de ti? Não contabilizo a proposta de invasão, não sei fazer amor contigo. Apenas te desejo, na areia.

Para onde vão as espumas desfeitas? Fundem-se, misturadas ao que deixou de ser? Como apreender a fugaz existência do que o olho cria?

Na fina malha da tua fluidez, cortar-te ágil. Conter o peso, a leveza e a fundura da tua matéria. Sondar caminhos, aqueles que conduzem a um farol solitário, à ilha onde a areia é de algodão, às espumas ansiosas, malhadas de sol. Admirar tua face em movimento, a familiar sensação de que te conheço. Depois, o pressentimento, a súbita impressão de tua exposta e gentil vaidade.

Nos braços da brisa, entre a paz do céu e da terra, a primeira sentença do dia: pisei sobre conchas partidas e arranhei uma imensa tristeza. Eis que um lento segredo emana de ti pelos vagalhões enfurecidos, pelas calmarias sedativas e silêncios paradoxais: afunda-te, mar grandioso, rugindo a contraditória e renovada poesia da água.

Prisioneiro de móvel escultura, libertas sereias insones. Sem rumo a seguir ou direção a tomar. Indo e voltando, às cegas, cumprindo o destino das almas penadas.

O Gênesis esqueceu de contar que, após a Criação, Deus olhou para baixo, cofiou a longa barba, despiu-Se da santa roupa e desceu para um banho de mar. Anjos armaram uma barraca celestial: Deus criava a praia.

Perfume de água, exalas força. Exsudação de tremores, embates, noturnas intimidades. No interior de tua essência, um polvo encantado sonha. Porém, defino-te politicamente: democrático, teu espaço é uso. Diluis o urucum, o gel dourado, e a primitiva sensação do que chamam veraneio.

 

Ao longe, um céu de opalinas desaba sobre tua superfície. Há como evitar esta fatalidade? Quisera aprisionar na fotografia teu secreto compromisso com a beleza.

Teu peso é monumentalidade, solidez. Mas, para que cavar este engenhoso espectro rebuscando palavras? Perdoa-me cantar-te, sou um canário terrestre. Um peixe atípico. A sensação de espumas cálidas inspirou-me.

Bastavam: água potável, verdura fresca, fruta, peixe, sal, fogo. Um óleo aromático para passar na pele. Casinha com varanda. Duas saias, duas calças jeans e algumas camisetas. Chinelo e sandália de couro. Um moletom e um cobertor. Uma cama feita de estrelas. Paz. Fé. Amor no coração. Esperanças acesas. E tua música ao fundo…

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