O sábio Sabiá.

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download (7)Conheço uma estória, passada na íntegra, em área do antigo parque infantil. Para os mais jovens refresco a cabeça, contando o lugar. Entre o salto e a ponte, atrás do hotel, local onde hoje, tem livro, papel e jornal; onde foi construída há dois anos, a Biblioteca municipal. Como que num livro, saído das prateleiras dessa biblioteca, começa essa estória, contada por um sabiá diferente que habitava uma das árvores de frondosa copa do lugar. Morador vitalício do local, voava cantando e alimentando filhotes em ninho cativo, até que um dia, em nome do progresso seu ninho acabou, levando por terra, todos os seus sonhos, família e tempo de casa. Em dias e meses seguintes, por sobrevoos solitários e de muita tristeza viu tudo aquilo mudar, num prédio de pompa, cantado ao futuro pela arquitetura contemporânea. O tempo passou e entre a saudade, uma lembrança e outra, o velho sabiá fazia a rotina do lugar. Desanimado e um tanto aborrecido, resolveu que não mais faria seu ninho, pois os ‘cara pálidas’, quando resolvem: derrubam! Daí, num misto de preguiça e desilusão resolveu se abrigar debaixo da folha de zinco da lateral desse prédio. Lá, de próprio corpo, descobriu sobre uma, outra desgraça humana: – Que o efeito estufa era real! E foi aí, nesse instante, que ele pode entender que o novo abrigo só lhe serviria como dormitório, pois à luz do dia era impossível. Dia após dia, muitas vezes, saracoteando nos jardins, se viu flagrado nas janelas espelhadas de vidro e não gostava daquilo que via. Era tudo muito diferente! A imagem, como que num jogo de espelhos, enganava, refletindo mais árvores do que realmente existia no lugar. Porém, um dia, notou que alguma coisa havia mudado. Pessoas de menos habitavam o local. Tentando entender as portas e vidros agora fechados, numa fresta estranha pode então ouvir: – Fecha esse prédio e toma cuidado; tem trinca por todo lado. Um tanto confuso daquilo que ouviu, apavorado, o sábio Sabiá saiu assustado; voou bem distante, pro outro lado do rio e feito promessa de lá não saiu, pois ‘tava’ com medo daquilo que ouviu: – ‘Progresso mal feito de quem construiu’! Em susto tão grande, essa estória acabou e com medo do prédio, nem seu livro, pra lá retornou.

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