Omissão

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Enquanto caminhavam disse ao amigo – sujeito engajado e de senso crítico apurado: “Se não tivesse filhos para criar me envolveria mais nas lutas sociais”.  Respondeu o amigo: “Talvez seus filhos sintam mais orgulho vendo você lutar pelo bem de todos que somente o deles, pois se todos estiverem bem eles também estarão”.

Uma pessoa comprometida vale por centenas de omissos. Dificilmente alguém, por pior que seja, resiste a gestos de bondade. Só como exemplo, vejam as áreas verdes abandonadas. De repente aparece um ou outro cidadão que começa por limpar e cuidar. Em pouco tempo o que era um lixão vira referência para a comunidade, até para os sujões. Como disse o filósofo irlandês Edmund Burke (1729 – 1797). “Ninguém comete erro maior do que não fazer nada porque só pode fazer um pouco”.

“Mudanças estão ocorrendo e cada vez mais rapidamente. O arco histórico da humanidade é longo, mas se curva na direção da justiça. Talvez lentamente demais; mas está indo na direção certa”. (Marcelo Gleise, professor de física e filosofia, EUA).  Uma só pessoa boa já impõe respeito. Um só que lute por justiça dá o que falar; imaginem muitos. O mal sempre teve o espaço que quis para realizar sua obra e até se superar em crueldade, porém, a cartada final é do bem. Vemos gente poderosa caído do trono todos os dias. De que lhes serve a ambição? Mesmo que se safem de penas, jamais serão as mesmas. Isso me faz lembrar o desabafo de um presidiário condenado a 30 anos de prisão por duplo homicídio: “Até hoje suas vozes soam em meus ouvidos pedindo para parar de golpeá-los. Tanto faz aqui como na rua; estarei sempre preso”.

Por todos os lados vejo pessoas reclamando da situação atual. Sinto ojeriza. Como disse James Baldwuin, escritor e ativista norteamericano (1924-1987) “Nem tudo o que se enfrenta pode ser modificado, mas nada pode ser modificado até que seja enfrentado”. Portanto, não há limites para o bem. Tudo ele pode.  Não vejo justificativa para a omissão.  Medo deve sentir quem pratica o mal. Sabe que cedo ou tarde terá de responder sozinho já que crime, mesmo pensado em bando, na hora do pega é cada um por si. O bem não. O bem tem lastro coletivo, e para quem tem fé, a garantia de Deus. Raramente alguém defende um malvado. Aos bons não faltarão defensores.

Tenho observado, também, que o mal só cresce onde o bem se omite, assim como um terreno sem cuidado é tomado pelo mato. Podemos dizer que o mal não existe. O que existe á a ausência do bem. Por isso sinto asco de pessoas que profetizam futuro sombrio e reclamam de tudo: bairro, rua, casa onde moram, vizinhos, jovens, políticos, atendimentos que recebem, lixo, violência, drogas, trabalho, tempo, falta de coisas, doenças, etc. Não quero generalizar porque ninguém é 100% omisso, nem acho que se deva aceitar tudo, porém grosso modo falando, essa gente não gosta nem de si. Botam óculos escuros e saem por aí enxergando trevas. Na verdade, atestam a própria omissão visto que se tivessem feito alguma coisa por pequena que fosse, a situação seria outra. É claro que um profissional responsável, bom pai e cidadão cumpridor dos deveres; também pessoas honestas, educadas e solidárias estão longe de ser omissas. Assim como ninguém é 100% presente.

Falo dos que por nada se interessam; nem por si mesmos. Não cuidam nem do corpo nem da alma, mas querem ser cuidados. Ora, quem se detesta vira um fardo imenso. Não toleram erros alheios já que refletem os próprios, e isso muito os incomoda. Ao menos tivessem algum tipo de engajamento político; participassem de movimentos sociais, trabalhos voluntários, etc. Conflitos e atritos os fariam melhores.

Talvez lhes caiba a passagem: “E eles ouviram de má vontade, e fecharam os olhos, para não acontecer que vejam com os olhos, e ouçam com os ouvidos, e entendam  com o coração e se convertam e assim eu os cure”. (Mt 13, 15).

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