Onde passar o Natal?

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natal-chicagoÉ a pergunta da hora. Nessa época do ano damos conta do quanto solitários somos e do quanto precisamos de calor, carinho, proteção e companhia. É uma noite igual a todas, porém, o pavor de ficar só angustia muita gente. Na verdade, sentimos necessidade de fazer parte, de estar ligado a algo. Nem Deus é sozinho. Precisamos uns dos outros. Nos momentos alegres queremos dividir nossa alegria. Nos tristes procuramos braços que acolham, palavras que confortem. Observemos que nas tragédias não é dinheiro que resolve, mas solidariedade, compaixão, generosidade. Não foi o dinheiro que amenizou a dor das famílias e resgatou vidas sobreviventes do desastre da Chapecoense. Aliás, foi justamente a ganância a causa do desastre.

O Natal vem lembrar-nos que somos todos irmãos e Deus é o Pai de todos. Se não entendermos isso nunca haverá paz. Enquanto uma só pessoa tiver sofrendo por causa da injustiça e do descaso a humanidade não terá sossego. Vejam a loucura que a falta de amor vem fazendo no mundo. Quanta destruição e morte. E não só no mundo, conosco mesmos por não darmos ouvidos aos nossos mais profundos anseios e magoar a nós mesmos a fim de levar vantagens ou ficar bem na fita. Tem amor por si quem se faz submeter a isso? Em nossa casa a falta de amor faz estragos duros de serem superados. Em nossa rua quantas pessoas carregam pesadas cruzes sozinhas. Em nosso trabalho e assim por diante. Quem não se atina para essas coisas no dia-dia quer o quê?

O que nos inquieta, no fundo, não é passar o Natal sozinhos, mas sermos sozinhos, não pertencer, não fazer parte dos que acreditam e lutam para que o amor chegue a todos. Mais um Natal nos pega voltados para a própria barriga. Por isso nos sentimos por fora. A festa não nos diz respeito. Tanto que muitos, rodeados de conhecidos estranhos, comerão, beberão, regalarão, se presentearão, mas não entrarão em comunhão, porque nunca estiveram em comunhão. Pensam que a festa é fora, quando na verdade é dentro.

Meu próximo é aquele de quem me faço próximo, de quem me faço presença e ternura; aquele que deixo de mim se aproximar. Especialmente os mais complicados. Cortar a volta dos discriminados para fazer-se próximo dos legais e bem resolvidos é coisa de gente que se recusa a crescer.

Pessoas nessa época vão às periferias das cidades distribuindo brinquedos, cestas.  Dizem se sentir bem auxiliando gente carente, o que demonstra carência maior. Vão para ajudar, mas no fundo buscam ajuda. Procuram abraço, gratidão e valorização. Não percebem isso porque vivem sem atinar para a dor que dói lá dentro. Ajuda mais os pobres quem procura ter conduta pessoal justa, sóbria e fraterna, e luta para que todos tenham vida digna a fim de que ninguém mais dependa da caridade alheia.

Se temos um coração forte e ciente das próprias fraquezas; transparente, aberto ao novo, solidário, cheio de bons sentimentos, livre e soberano, o melhor lugar para passar o Natal é conosco mesmos, estando em casa, com amigos, trabalhando ou em lugar inóspito. Por outro lado, se estamos a procura de um canto que nos esconda de nós mesmos, melhor aproveitar esse Natal para rever o tipo de vida que estamos levando.

 

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