Os 80 anos da morte de Luigi Pirandello: o anatomista da alma humana

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    pirandello  A literatura italiana, rica e milenar, ainda não teve a justa valorização no Brasil, se comparada à disseminação das literaturas de língua inglesa, francesa ou mesmo espanhola. Talvez isto se deva ao fato de que o italiano não tem a mesma difusão que o inglês e o espanhol, mas acredito que o principal empecilho repouse sobre o caráter eminentemente filosófico dos seus grandes escritores. Dante, Petrarca, Leopardi e Manzoni, só para citar alguns exemplos, escreveram obras que estão e sempre estarão no rol dos grandes clássicos universais, constituindo ao longo da história pontos de referência para qualquer literatura, europeia ou não.

            Pois bem, Luigi Pirandello, que faleceu em Roma há oitenta anos, em dezembro de 1936, pode muito bem ser inserido nessa relação de grandes poetas, contistas e romancistas “filósofos”, cujas obras esmiuçaram a condição humana, propondo soluções para os grandes problemas que afligiam não somente a Itália, mas também todos os povos , em todos os tempos. O problema é que no caso específico de Pirandello seria melhor usar o termo “antifilosófico” para caracterizar o ponto de vista expresso em suas obras.

            De fato, assemelhando-se a um bando de “Woody Allen” avant la lettre, seus personagens mais maduros, nos contos e romances, mas sobretudo no teatro, falam pelos cotovelos, neuroticamente, questionando tudo e todos, encostando na parede os bem pensantes, os que se apegam literalmente às teorias do “medalhão” do famoso personagem machadiano do conto homônimo. É como se as personagens pirandellianas tivessem saltado dos contos e romances de Machado da fase mais madura para iniciarem uma rebelião, fadada ao fracasso, contra o que no escritor carioca era apenas constatado resignadamente como uma condição sem possibilidades de mudança.

            Em Pirandello, as máscaras e os medalhões machadianos passam por um processo de contestação que leva inevitavelmente as personagens a uma profunda consciência de que não há nada que possa explicar o ser humano, isto é, a um avesso do pensamento filosófico tradicional. Em O alienista, o cientificismo do final do século XIX cai nas garras da fina ironia machadiana e o protagonista constata no final, tristemente, que quem pretende enquadrar e “consertar” as estranhezas dos seres humanos é tão ou mais louco do que os supostos alienados que devem ser retirados do convívio social. Em Pirandello, os anti-heróis, arautos da antifilosofia, são rapidamente tachados de estranhos e de loucos pelo senso comum e inevitavelmente caem na marginalidade ou são convidados a saírem de cena do grande teatro social.

            Nada fica em pé no longo processo de desconstrução do bom senso, dos lugares comuns e do raciocínio capenga empreendido pela pena de Luigi Pirandello. De tudo o que ser humano vagarosamente construiu, após milênios de suposta civilização, o escritor siciliano só poupa a arte, única possibilidade que resta ao ser humano de superação do fluxo temporal que nos arrasta inevitavelmente à morte. A concepção da arte como a única “força” criativa humana capaz de realizar na prática a superação da condição humana imaginada por Dante, poeta visionário e cristão, na Divina Comédia, ou a vingança contra a natureza-madrasta concebida pelo genial Leopardi, está explicitada no famoso prefácio da peça Seis personagens à procura de autor. Trata-se do último “mito” ou “ilusão” à qual o autor se apega no auge da sua carreira: uma espécie de trunfo sobre os animais irracionais, que vivem num mundo aparentemente feito sob medida para eles, mas não habilitados a realizar uma obra de arte.

            Paira ainda certa incompreensão sobre a vasta obra pirandelliana, pois cá e lá ainda se fazem alusões incompreensíveis à sua adesão ao fascismo. Assim como pregou a antifilosofia, assim também não aceitou a democracia convencional e corrupta da época. Não foi um fascista, mas tendo de optar entre uma das duas farsas, isto é, entre a hipocrisia democrática e a arrogância fascista, preferiu a que lhe deve ter parecido a menos mentirosa, ao menos no contexto da época. Nada poderia ter sido mais coerente, portanto, com todo o universo neurótico e desmistificador que brilhantemente esse grande autor nos apresenta em toda a sua obra.

 

*Sérgio Mauro é professor da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara.

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