Os cães não têm culpa

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unnamed   Às vezes, penso que sou uma “alma-vítima”, cuja expiação é ter de conviver com latidos de cachorros. Nada tenho contra animais, ao contrário, sempre tive profundo amor por eles. Contorcia-me de pena ao vê-los sofrendo em picadeiros de circos e cresci respeitando a vida de qualquer bicho. Morei duas décadas num bairro onde, por algum tempo, desfrutamos de certa tranqüilidade. Aos poucos, o cenário sonoro foi se transformando. Durante o dia, eram os latidos na casa ao lado, a ponto de pegar meu carro e precisar sair, para aliviar a dor de cabeça. À noite, gatos correndo pelos telhados, miados agudos de felinos no cio. Desta casa, meu marido e eu nos mudamos para uma chácara. Posso dizer com autoridade que raramente se vai ao encontro da paz neste recanto sonhado. De início, encantamo-nos com a beleza do campo, mas suportávamos a algazarra e as festas das propriedades próximas. Então, um vizinho vendeu a chácara e a nova dona, consta, veio com oito cachorros. Os latidos eram em variada escala de raças e havia um meio rouco. Até que o pessoal da Zoonoses foi lá fazer a vacinação dos cães e a dona foi orientada a ficar com “apenas” quatro. Meu marido sentia vergonha de fazer isso, mas fazia: comprava bombinhas de São João e as estourava de madrugada para que os cães parassem de latir. No Natal de 2010, já viúva, negociando minha chácara e organizando a volta para a cidade, levei uma garrafa de vinho para a vizinha e lhe dei um abraço… Se a pessoa sabe que, ao deixar o cão sozinho em casa, ele irá latir por horas a fio, precisa tomar providências quanto a isso. O vizinho não é obrigado a ouvir latidos por uma tarde inteira e parte da noite, até que o dono volte para casa. E o direito à lei do silêncio a partir das 22 horas? Ou das 5 da manhã, num episódio de dois galos que acordavam a vizinhança e foram vencidos com uma ação legal. Acompanhei pessoalmente o caso de um cão infestado por carrapatos. Sua dona parecia ignorar o fato e os pequenos aracnídeos invadiram a residência ao lado. O morador desta fez todos os contatos possíveis com os órgãos responsáveis e nada foi feito de efetivo para resolver o problema. Só lhe restou agir por conta própria, comprar o remédio indicado e contratar uma pessoa para aplicar no cão. Alguém gosta de encontrar fezes de cachorro na frente da sua casa? O dono do cão não deve deixá-lo se aliviar lá fora, sobre a calçada dos outros. Pode-se passear com ele, esperar a biologia funcionar, recolher com uma pá, colocar num saquinho e voltar para casa. Isso é civilidade, ética, respeito para com o meio ambiente e para com o próximo. Os cães e gatos não têm culpa de nada. Seus donos é que têm a responsabilidade de se comportar de forma correta, entendendo que, se eles têm direito de criar animais em casa, vizinhos existem e devem ser respeitados. Há contendas irracionais sobre o assunto. Porém, tudo é questão de bom senso, de se buscar a convivência pacífica, baseada nos princípios que garantem a igualdade de direitos e o descanso de todos.

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