Pequeno relato de dor

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unnamedConforme anteriormente abordado, sofro de dor desde que me entendo por gente, como se diz. Desde muito cedo, fui tocada pela dor. Pela dor física. Via os meus primos, os colegas de escola e companheiros de brincadeiras rodando, pulando amarelinha, fazendo artes, dando cambalhotas, enquanto eu estava sempre com a mão apertando o lado direito do corpo, na altura da cintura, de onde me vinham dores insuportáveis.  Eu chamava de “dor do lado”.

Bem, não sei que tipo de história é a minha, onde me encaixo. Talvez encontre, ao longo das narrativas, uma luz para transformar minha existência excessivamente “normal” num relato que não seja insólito, comum e prosaico demais. Se há algo de original na minha história e digno de ser contado é o auto da dor.

Busco a percepção da minha “primeira dor”.  Talvez tenha sido a do momento de nascer, de vir à luz. Não sei.  Todo bebê chora ao nascer e é um choro bom, esperado, mas a razão do choro deve-se a algum tipo de desconforto, ou então, já de alguma forma de “dor”.

Tenho uma cicatriz pequena embaixo do queixo, e minha mãe me contava que, quando criança, caí batendo o queixo no chão, ocorrendo intenso sangramento. Houve um corte fundo no local. Não me lembro absolutamente de nada. Quando foi isso? Aos três ou quatro anos? Como ter memória de fatos ligados à nossa primeira infância? Sabemos que estas percepções variam de pessoa para pessoa.

Dor, dor mesmo, foram as de dente. Estas começaram cedo para mim. Dores de dente me torturaram quando menina. Havia uma pasta, de um cheiro forte (Pasta dental “Dr. Lustosa”), que se colocava sobre o dente para aliviar a dor. Depois, íamos ao dentista para o devido tratamento.

Os comprimidos mais comuns para dor eram Cibalena, Melhoral (“É melhor e não faz mal”) e Veramon. Comecei a tomá-los muito cedo. Para a dor do lado, havia o “Irgapirin”.

Além das dores de dente que me perseguiram durante a infância toda, tive dentes quebrados, dentes que necessitaram do temido tratamento de canal, ocasiões em que transpirava tanto e levantava ensopada de suor, o assento de plástico da cadeira do dentista todo úmido. Eu ficava com vergonha. Dor, dor, quanta dor!

Na escola primária, ia chorando até a diretoria, pedir para ir embora, pois estava com dor de dente. A diretora, dona Angélica, que para mim era uma santa de altar, olhava-me com aqueles olhos claros lindos, passava a mão na minha cabeça e dizia: “Vai, meu bem, pode ir para casa”. E eu subia pela rua Governador soluçando, segurando a bolsa de couro adorada, a lancheira balançando ao lado do quadril, chamando a atenção das pessoas que passavam.

Um dia, uma senhora me vendo assim rua, perguntou o que eu tinha. Mordendo o guardanapo de pano que embrulhara o lanche do recreio, respondi: “Estou com dor de dente”. Ela riu e disse: “Tá com dor de dente, vai ao dentista”.

Eu a fuzilei com os olhos. Continuei mordendo o guardanapo, para ver se aliviava a dor e fui subindo a rua interminável. “Vai ao dentista, meu bem!”. Tonta. Há coisas que não esquecemos jamais…

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