Roupa de ficar em casa

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Uma vez, descrevi num texto a maneira zelosa com que guardo minhas coisas nos armários, as toalhas de mesa nas gavetas do móvel que compõe a sala de jantar, e devo ter narrado com tal encanto, a ponto de uma leitora mandar um e-mail, manifestando seu desejo de vir conhecer minha casa e meus armários. Fiquei muito, muito feliz!

Entendi como um elogio ao meu texto e ao meu senso de organização. Não sou maníaca com limpeza e perfeição doméstica, apenas conservo tudo em ordem, cada coisa no seu lugar, tudo limpo e organizado. Mas nada patológico, em vias de ficar doente com isso.

Para começar, resido num recanto muito gracioso e quem vem me visitar diz que moro “numa casinha de boneca”. Tenho meu lar na palma da mão, a medida exata para o que preciso e nada mais. O lugar onde vivo é aconchegante por natureza, um pequeno condomínio fechado de duas ruas apenas: Rua Um e Rua Dois. O local é cercado por intensa área verde que não pode ser derrubada, pois é de proteção ambiental. Aqui pertinho fica a sede da Sedema, a Secretaria de Defesa do Meio Ambiente.

Estou bem onde estou, mas alimento o velho sonho de morar perto da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, a querida Igreja dos Frades, em cujos arredores passei a infância. As imobiliárias apregoam: “Nós realizamos o seu sonho”. Outro dia, falei disso com uma delas e perguntei se me ajudariam a realizá-lo. A corretora riu.

Morando em condomínio fechado, ficamos muito à vontade dentro de casa e pouco se atende à campainha. As visitas têm de passar pela portaria e somos avisados pelo porteiro. Assim, nos arrumamos caso apareça alguém no meio da tarde. E então, some rapidamente aquela velha bermuda jeans desfiada na perna; a sandália de plástico, amiga de tantas jornadas e a camiseta surrada que é quase um membro do nosso corpo.

É a roupa de ficar em casa. Quem não tem? Eu tenho e cuido com imenso carinho desta preciosidade. Ah, os dias em que só Deus sabe o que se passa no nosso coração!… O velho moletom nas noites frias para ver tevê; a blusa amada, de décadas, comprada em Campos do Jordão; o cachecol que um dia foi novo e a meias de lã que sobem até os joelhos. São doçuras da vida para os sobreviventes das lutas emocionantes.

De vez em quando, uma peça some entre as gavetas da cômoda. É uma odisseia para achá-la, questão de vida ou morte! Empenho-me de forma quase irracional nesta doce e amarga tarefa de procurar. Onde foi parar a bendita camiseta larga e longa, paixão eterna? Não sossego até encontrá-la e, quando avisto seus arabescos desbotados em meio aos pijamas de frio, um alívio humilde percorre meu superado desespero.

Ei-la! A camiseta de ficar em casa, de vestir depois do banho, sempre perfumada e macia. É   graça tanta que não tem preço nem nunca terá. São nossos guardados, nossos pertences, ricos ou não, valiosos ou comuns, mas que preenchem nossa alma como um caminhão de sonhos!

Moça, é aí que realizam sonhos?…

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