Se eu pudesse…

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se eu pudesseO que é que muitos de nós faríamos, se nos fosse dada a chance de viver de novo a nossa vida? Parece fazer mais sentido perguntar a quem já viveu, pelo menos, meio século. Do alto de 50 respeitáveis anos, é permitido olhar para trás e cofiar o queixo. Passar a mão no cabelo. Tirar uma lasca de unha. Suspirar. Deixar correr uma lágrima.

Mas para um jovem que deu um mergulho num lago, bateu a cabeça numa pedra e ficou tetraplégico, a pergunta também caberia. Se ele pudesse viver novamente a sua vida, naquele momento do salto, ele não teria pulado, sem antes indagar a alguém da vizinhança se haveria pedras no fundo.

Quando se é jovem, não se faz esta pergunta a ninguém: há pedras no fundo deste lago, moço? O corpo quer mais é viver a aventura da água e da graça. Diante da tragédia que prostrou o corpo, qualquer suposição posterior lacera a carne e a alma. Ah, se eu pudesse voltar atrás!… Se eu pudesse!…

Contudo, chega-se a um ponto onde resta-nos olhar pelo retrovisor da vida e o que está feito, está feito. Para uns, há glórias sobre glórias; para outros, dores, perdas, lutas, sofrimento. É a vida. Imagine Pelé se perguntando isso, se ele pudesse viver novamente a sua vida. Acho que a desejaria viver igualzinho, sem mudar nenhum dia ou hora.

Ah, meu Deus, e a nós, pobres mortais, o que imaginar?

Se pudesse viver novamente a minha vida, quem sabe, aos 18 anos, tivesse ido para São Paulo cursar Jornalismo, na primeira faculdade (foi a minha terceira) e talvez não tivesse conhecido meu marido e me casado com ele.

Teria sido eu uma jornalista de renome? Estaria hoje, quem sabe, na rede Globo? Só pensamos numa carreira glamourosa. Ninguém deseja o anonimato, o arroz com feijão do dia-a-dia meio sem graça, digitando anúncios ou revisando as colunas das celebridades. Todos querem seus 15 minutos de fama que, dizem, estão virando 15 segundos…

Eu cantava em algumas bandas, quando jovem. Teria sido uma intérprete de sucesso, se insistisse na música? Houve convites para fazer um teste, gravar. Mas não fui. Fiquei em minha cidade. Estudei, me casei, tive duas filhas, e depois de duas faculdades, voltei a estudar. Enfim, fui vivendo, simplesmente, sem me preocupar com “carreira de sucesso”. Não sei se foi insegurança, medo ou se optei por um recurso comum de vida, permanecendo onde estava e eu estava feliz.

Talvez fizesse o curso de desenho, sempre tão protelado! Poderia ter cursado Psicologia em vez de Pedagogia. Também Direito e Filosofia, meu sonho até hoje. Ah, eu não teria abandonado o tratamento para a coluna, ainda antes da primeira cirurgia. Possivelmente, tentaria morar um tempo numa beira de praia, com meu lindo, para saber como é.

Suponho, enfim, que teria ousado um pouco mais, conforme nos pedia um professor na faculdade: “Por favor, ousem!”. Mas, o que fiz está feito e, como escreveu Borges, ao olharmos para trás, deveríamos ter dado mais voltas a pé em nosso quarteirão, pisando em folhas secas, contemplando a paisagem e as pessoas. Haverá tempo ainda?

E você, leitor, se pudesse novamente viver a sua vida, o que você faria?

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