“Ser gourmet é preciso, viver não é preciso”

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images (1)   Talvez o poeta lusitano Fernando Pessoa se contorça lá no Céu pelo abusado uso que faço ao adequar o título acima a partir da sua célebre frase: “Navegar é preciso, viver não é preciso”. Que me perdoe o Poeta. O fiz para tentar precisão maior a estas linhas que me ocorreram escrever quando, de carro pelo centro de Piracicaba numa manhã abafada e cinza de segunda-feira, girei o dial e duma emissora FM eclodiram falas vibrantemente cômicas. O vozerio denotava uma eloquência filosófica de fazer atentos até mesmo os mais desavisados. Contudo, do que pude ouvir, na correria de todos nós, locutor e convidados se deleitavam com o significado e as contemporâneas interpretações da palavra gourmet. De origem francesa gourmet assim se explica na língua inglesa: “a connoisseur of good food; a person with a discerning palate”; o que em tradução aberta nada mais é do que “um apreciador de boa comida; uma pessoa com um paladar exigente”. Gourmet, por conseguinte, designa os mais históricos e genuínos degustadores de iguarias e vinhos à alta cozinha. É bom ressalvar que as relações humanas se dão bem melhor em torno da boa mesa; seja ela singela ou sofisticada; alta ou baixa. Hum! Outro fato é que o mundo multimídia sobrecarrega a vida da gente – há excesso de informação no ar a nos devorar. Temos de nos cuidar para, nessas horas, não desorientarmos nossos dias com notícias desinteressantes logo às soleiras das alvoradas. Penso que, com o tempo, aprendemos que essa é uma seleção natural e deixamos de nos estressar por conta de tais ruídos audiovisuais. Sejamos ribeirinhos, caiçaras, campeiros ou metropolitanos. Está bem! Seguindo no ‘universo gourmet’, esta palavra abrasileirou-se faz certo tempo num rótulo de maionese e acabou virando clichê nas Terras de Pindorama: “Passa gourmet que dá”, dizia mais ou menos assim a propaganda. Daí para frente gourmet associou-se a produtos, serviços e virou sinônimo de ‘descolados’ – de profissionais que se destacam numa ou noutra área. Idiossincrasias para lá: importante é saber que o grau de relevância de um profissional nem sempre se pode medir pelo seu grau de popularidade. Pronto, agora até edificações se classificam arrojadas por conta de espaços gourmet e nelas é chique a presença de um caro chef gourmet; coisas do gênero. Incrível a mania de querermos encontrar os tesouros da simplicidade nas cavernas da extravagância. Detalhe: não é somente no belo roteiro da atual ‘novela das nove’ da Rede Globo que um honrado e autodidata cozinheiro nordestino encanta comensais. Renomados chefs internacionais, muitos deles formados na Le Cordon Bleu, reverenciam talentos assim. Ora bolas! Nesse balaio de gato da incessante ganância nossa de todo dia, torna-se hilário sabermos hoje nas ‘gôndolas dos hipermercados gourmets’ de expressões como: açúcar biodinâmico. Viva a garapa e a rapadura. Puxa vida, temos incontáveis hortifrútis de época e tanta terra para arar. Gostoso mesmo é a boa prosa perto de um fogão à lenha, cadeiras na calçada, rede na varanda, cafezinho de bule, carne e batata na panela de ferro, bolo de fubá, o bom e tradicional brigadeiro da vovó – aquele de colherada que lambuza até a cabeleira da prima. Bem antes da apregoada era do consumo consciente, sabemos que o que mata é o exagero. “Até água faz mal se consumida demais”, diria o genial botânico Walter Radamés Accorsi, da ESALQ-USP. Mas o frenesi mercantilista insiste no atrelar a felicidade da gente às mais requintadas formas de consumo. A ‘cultura gourmet’ definitivamente não orna com um país de alto déficit no saneamento básico, saúde, educação… No item segurança pública instaurou-se o caos. Corrigir rotas da desigualdade depende da responsabilidade do que se propaga. Jornalistas e publicitários têm nesse contexto importância vital, sobretudo na administração de fluxos de informações – atribuição elementar de suas profissões. Parafraseio aqui o assistente social do SENAI de Piracicaba, Arcanjo Porrelli, “uma única palavra pode custar vidas”; pressagiava o nosso também professor de latim e português – meu falecido pai. Tem muita gente sem água para beber e sem pão para comer. E, desse jeito, meu caro, nem passando gourmet dá.

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