Será que Ele existiu?

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No Natal de 2007, recebi uma notícia pela Internet, cujo título era o seguinte: “Sacerdote pode ser julgado por dizer que Jesus existiu”.

Na pequena Viterbo, ao norte de Roma, o padre Enrico Righi foi acusado por Luigi Cascioli de violar a lei. Cascioli culpava a Igreja Católica Romana por enganar as pessoas durante 2.000 anos com uma fábula.

Os advogados do sacerdote e do seu acusador tiveram uma breve audiência com o juiz Gaetano Mautone, estudando-se a decisão de se arquivar o caso, ou de levar o padre a julgamento. Cascioli registrou uma queixa-crime contra o padre porque este escrevera no boletim da paróquia que Jesus existiu de fato, nasceu em Belém, era filho de José e Maria e viveu em Nazaré.

Entre as acusações de Cascioli, constava a de que o sacerdote estaria violando duas leis, com o “abuso da crença popular” e o da “personificação”. Ou seja, segundo o acusador, o padre teria cometido uma fraude, ao afirmar que Jesus existiu, e também cometeu um crime por atribuir um nome falso a um personagem.

Já o advogado do sacerdote afirmava que Don Righi era inocente “porque ele disse e escreveu o que ele tem o dever de dizer e escrever”. E acrescentou que o padre “não estava afirmando um fato histórico quando escreveu sobre a existência de Jesus, mas sim expressando princípios teológicos”.

Depois de mais de 2.000 anos de história cristã, há quem não acredite na existência de Jesus. Mas daí a mover um processo contra quem proclama o Natal é algo bem antidemocrático. Um cidadão acusa um sacerdote de dizer inverdades, lesar a boa fé das pessoas, inventando uma fábula, criando um personagem que não existiu. E este personagem é ninguém mais que Jesus de Nazaré.

No contraponto de tantas contendas, um portal da Internet levanta uma questão importante, sobretudo por se tratar do universo infantil: como contar a uma criança que Papai Noel não existe… Quase toda criança acredita no velhinho de barbas brancas, com o pesado saco às costas, que desce pela chaminé, entra pela janela, enfim, dá um jeito de passar nas casas das pessoas e lá deixar os presentes. Mas, um dia, a criança cresce e descobre que o brinquedo veio do papai e da mamãe, e não do outro – este sim, um personagem, um ícone da crença popular.

Muitas pessoas confessam o seu profundo desencanto, o seu quase “trauma” de infância, quando descobriram que Papai Noel não existia. Contudo, a fé no bom velhinho é tão grande que a crença continua firme e forte por aí. Muitos pais, nesta época, incentivam ou ensinam os seus filhos a escrever cartinhas a Papai Noel, alimentando ainda mais esta fantasia. Alguns psicólogos veem isso como algo positivo, por permitir que a criança desfrute este momento de felicidade, de ilusão. Afinal, vivemos num mundo tão violento! Uma fantasia inocente não faz mal a ninguém, dizem. Contudo, é preciso estar atento para o momento em que as crianças começarem a fazer perguntas sobre a existência de Papai Noel.

E agora, meus caros? Sobre quem devemos falar com nossos filhos na época do Natal? Vamos nos preparar para dizer a eles que Papai Noel não existe, ou vamos dizer que Jesus existe, nasceu numa humilde manjedoura, em Belém, adorado pelos pastores, pobrezinho, envolvo em panos? Que dilema, hein? Quem, afinal, conseguirá ser o verdadeiro personagem do Natal: Papai Noel ou Jesus?

É uma luta inglória! Uma batalha insana – que a mídia parece ganhar de dez a zero, pois é mais fácil acreditar em Papai Noel do que em Jesus. Por paradoxal que seja, acredita-se no personagem que não existe e põe-se em dúvida Aquele cuja história tem comprovação científica de Seu Nascimento, Paixão e Morte.

Vamos ter a coragem de dizer às crianças que Jesus é a razão do Natal e não Papai Noel? Teremos o bom senso de permitir que o velhinho querido entre na festa, mas como coadjuvante apenas, deixando para Jesus o centro da celebração natalina?

O Natal é encantador e santo, mas não deixa de gerar constrangimentos. Até hoje. Ah, como o natalício de Cristo incomoda. Pois lá numa cidadezinha da Itália, um pobre padre foi acusado por um conterrâneo de ter inventado um personagem e enganar as pessoas com uma fábula.

O padre só escreveu no boletim da paróquia que Jesus existiu e nasceu em Belém. Filho de Maria e José. A cena de uma noite gloriosa na qual, para a fé cristã, nasceu o Salvador. Incenso, ouro e mirra. Adoração. Anúncio dos anjos. O Verbo veio habitar entre nós. Um presépio eterno, de luz e de paz, perpetua-se na memória e nos corações atentos.

Felizes os que não viram e creram

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Marisa Bueloni é formada em Pedagogia e Orientação Educacional. É membro da Academia Piracicabana de Letras. ([email protected])

1 comentário

  1. Antonio Carlos em 03/12/2012 às 09:07

    Lindo, Marisa. Só não acredita quem é orgulhoso demais ou cego. Se Jesus viesse de helicóptero talvez acreditassem.

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