Sonhando…

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Se o Senhor me permitir, pretendo sonhar um pouco mais que o permitido. Andar ao léu e ver se ainda existe uma casinha com roseiras no jardim. Puro sonho. Caminho nas ruas do condomínio onde moro e então me dou conta de que andei léguas sem fim. Ando dentro de mim.

Se o Senhor me permitir, quero tocar aquela estrela. Aquela imensa que surge nos céus invernais. Já guiou marinheiros perdidos no tempo das velas. Não estou perdida. Mas preciso me encontrar.

Se o Senhor me permitir, quero mudar o rumo do velho veleiro navegando em meu pobre peito, nas planícies marinhas desta viagem. Minha alma nômade não se cansa de peregrinar. Há conchas insulares a minha espera e meu olhar se perde no horizonte oceânico eternamente distante.

Se o Senhor me permitir, juro passar mais tempo de boca fechada, praticando a arte de silenciar. Falar é bom quando o assunto é importante. O silêncio possui o peso das conquistas interiores. Elas sabem quanto valemos. Ó paz, ó quietudes, ó calmarias, estou à vossa disposição.

Se o Senhor me permitir, enviarei aos meus amados um e-mail incendiário, ilustrado por um ursinho saltitante. Escreverei palavras de fé e esperança. Despedir-me-ei com um caloroso abraço. Mesóclise do sonho.

Se o Senhor me permitir, quero viver um pouco mais no meu lar doce lar, neste recanto abençoado. À noite, sob o aconchego das cobertas, agradeço pela casa, o carro na garagem, as roupas no armário, o alimento na despensa e na geladeira.

Se o Senhor me permitir, planejo ter vida longa e risonha. A alegria do coração é a longevidade do homem, diz a Palavra. Apesar das minhas lutas e dores, sou muito alegre. Ó Deus, que a tristeza não chegue sem que eu saiba.

Se o Senhor me permitir, pretendo chorar. Depois rir. Já viu como o riso é benfazejo depois do pranto? A gente ri com a alma. Que eu chore num dia e ria no outro, porque assim é a vida e isso não posso mudar.

Se o Senhor me permitir, anseio melhorar bem da coluna e, ao som de uma música romântica, receber um convite para uma dança inesquecível. Ó céus, de onde virá o pedido fatal? Tem de ser um clássico de Ray Conniff, por favor.

Se o Senhor me permitir, desta vez pego carona no primeiro vislumbre da beleza. Sinto muito, eu vou. Num rabo de foguete. Numa subida vertiginosa e alucinante, sem dar tempo de pensar. Uma elevação destas em que o espírito não sabe por que subiu tão alto e por que a Terra brilha lá embaixo. Seguro firme no cordão prateado, entrelaçado de rosas, e vou ver de perto o sonho: o pote de ouro onde nasce o arco-íris.

Se o Senhor me permitir, gostaria de desvendar o mistério. Que face ele tem. E o que quer de nós. Erguer só uma pontinha do véu. Ó, que fascínio, que estupendo entender coisas como nascimento, morte, vida, paixão. E jamais desistir de sonhar, caso não venha a entender absolutamente nada.

 

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