Trinta e nove mil

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Se R$ 33 mil mensais de salário não fossem suficientes para você, 39 mil seriam? Foi de estarrecer o reajuste autorizado pelo governo Temer aos servidores públicos, cujo efeito cascata provocará nas contas públicas impacto de R$ 58 bilhões até 2019. “A mudança maior foi o aumento do salário dos ministros do Supremo Tribunal Federal, que delimita o teto do funcionalismo para R$ 39.293 mensais”. (Folha 04. 06.16).  Falta aprovação no Senado.

Tenho um amigo que, nas décadas de 70 e 80 passadas, trabalhou formalmente numa entidade assistencial. Era bem quisto pela diretoria e voluntários; estimado pelos usuários e respeitado pelos colegas. Devido sua dedicação logo passou a administrar a instituição. Como gostava do que fazia nada lhe parecia pesado, apesar de o trabalho exigir muita dedicação.

A diretoria, reconhecendo sua capacidade e o salário modesto que recebia, quis por seguidas vezes dar-lhe aumento extra. Porém, ele perguntava: “Vai ter extra para os outros também?”. Ante a negativa, já que a organização vivia no limite, respondia de pronto: “Então também não quero. Ou tem para todo mundo ou não tem para ninguém. Já ganho mais que os outros pelo cargo que ocupo e pela minha graduação. Ademais – pensava – como fica meu moral ante colegas, que também se dedicam muito? Como ser um líder respeitado tendo um aumento exclusivo se sozinho nada faço? Não existe privilegiado onde vigora o companheirismo”. Era radical: “Pessoa feliz não demanda tanto dinheiro, e uma das formas de felicidade é fazer o que gosta e gostar do que faz”.

Sei que trabalhou naquela ONG bem mais de dez anos. Pediu demissão por sentir necessidade de novos desafios, que nunca o intimidaram. Por onde passou deixou sua marca. Mesmo sem receber grandes salários nada lhe faltou. Conseguiu comprar sua casa, onde mora com a família; viaja nas férias e sempre teve até mais que o necessário para levar vida decente. E ainda sobra para ajudar quando alguém precisa.

O que isso tem a ver com o início de nossa conversa? Tem que se uma pessoa não consegue viver muito bem com 33 mil reais por mês, nem com 39 e nem com cem. Não interessa se é juiz e se está no topo ou da base. É funcionário público como muitos brasileiros, em nada mais importante que professor, policial, assistente social, agente de saúde, enfermeiro, coletor de lixo etc. Ademais, se 90% de seus concidadãos vivem – a maioria dignamente – com menos de 10% disso por que precisa de tanto? Salário desse tamanho é deboche perto do que ganha a maioria.

Sujeito que não tem vida de rei com salário mensal de R$ 33 mil só pode ser um doente, um dissipador. Pode ganhar dez vezes mais e nunca serão suficientes. Em vez de aumento, pessoa dessas precisa de médico, pois se trata de um perdulário ou esnobe. E como pode alguém ganhar tanto sem se sentir incomodado ao ver pais de família criando filhos honestamente com dez vezes menos? Egoísmo e insensibilidade social são posturas patológicas. Trinta e três mil compram um carro popular por mês e uns dois apartamentos populares por ano – um só já é sonho para milhões de brasileiros.

Dizem que pessoal do Judiciário deve ganhar bem a fim de não cair na tentação do suborno. Ora, vejo pobres devolvendo grandes quantias que acharam por acaso. Fazem isso porque prezam valores que o dinheiro não compra. Servidor público que requer alto salário como justificativa para enfrentar a corrupção tem preço; é questão de tempo e ocasião. Recusar corrupção tem a ver com ética não com dinheiro, mesmo que ganhe salário mínimo. Isso vale para juiz, médico, engenheiro ou faxineiro.

Como o juiz Luiz Guilherme Marques da 2ª Vara Cível de Juiz de Fora, MG, nossos magistrados deveriam recusar o reajuste. Afinal somos uma nação demais injusta e concentradora de renda.  Seria o exemplo que o país precisa para erguer a cabeça.

1 comentário

  1. Marisa Bueloni em 07/07/2016 às 20:00

    E nós, aposentados e pensionistas, há quantos anos sem um aumento digno?…

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