Noite de Vigília com Beto Surian

“Não viva para que a sua presença seja notada, mas para que a sua falta seja sentida” Bob Marley

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Beto Surian, cantor e compositor piracicabano

A cada tema deste livro – já acredito que a cada linha – de emoções e lembranças, pulsa-me o coração. E, mais do que nunca, elevo graças aos deuses – seja Um apenas, sejam muitos – pelo privilégio não apenas de tanto ter vivido, mas de tanto ter visto, ouvido, presenciado, acompanhado. Sinto-me um testamenteiro de uma formidável época, de uma história – a caipiracicabana – envolta em tradições e pioneirismos. Tenho sido ator e autor, espectador e observador dessa, tanto na cena como no palco. Na dor e no amor. E vi estrelas fulgirem, nascidas de um relampejar repentino.

Beto Surian – meu grande amigo – foi uma dessas faiscantes luzes. Vi seus primeiros lampejos quando era, ele, irrequieto, vulcânico, mercurial adolescente. Seus delírios artísticos eram tais que, mais do que imantado, Beto, Bebeto, parecia intoxicado por licores e venenos do universo musical. Para ele, valeu a revelação de Fernando Pessoa: “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”. A alma de Beto Surian era um fogaréu que se não apagava. E ele permitiu que tudo lhe acontecesse, como se sabedor de sua alma não ser pequena.

Acolhi Bebeto a meu círculo de familiares e de jovens amigos quando ele me pediu para ser inscrito no TLC (Treinamento de Liderança Cristã), movimento católico dirigido por leigos. Bebeto deslumbrou-se com suas descobertas espirituais e deslumbrou a todos com o explodir de uma vocação musical inspirada pelo amor e pela generosidade. Sua permanente luta – própria dos verdadeiros artistas – era travada entre o seu fantástico universo artístico e a medianidade do cotidiano. Beto deixou-se embalar acima de convenções, numa época em que quase todas elas estavam sendo rompidas.

De um amor de juventude, nasceu Alessandra, a linda, doce e luminosa Alessandra. Beto, jovem e fogoso corcel, amou-a muito, mas não tinha como mantê-la. E, por alguns meses, deixou-nos Alessandra, pela qual Mariana, eu, todos os cinco filhos nos apaixonamos intensamente. Alessandra já nasceu linda demais, doce demais. E encantou-nos a vida por aqueles meses todos. Depois, ela e sua jovem mãe foram embora. E ficou-nos o vazio: Alessandra, filha de Bebeto, onde está?

Beto nasceu em Brotas e fez seu primeiro show em Torrinha. As maiores influências foram os Beatles e a Jovem Guarda. Ele teve músicas gravadas por Roberto Carlos (Silêncio) e Antônio Marcos (a inesquecível Quem Dá Mais, que foi tema da novela O Profeta, tendo como protagonistas Carlos Augusto Strazzer e Débora Duarte) e fez um samba-enredo marcante para a Ekypelanka (o que exaltava o Papai Disney). Beto – quando o sucesso o abandonou – pensava no seu retorno à glória no final dos anos 80. Mas não aconteceu. Até o empresário Marcos Lázaro esteve em seu show no Clube de Campo. Fez muito sucesso em festivais e tinha Roberto Carlos como ídolo. Ao saber que o Rei tinha rancho em Piracicaba, receava aproximar-se: “Tinha medo de que ele não me reconhecesse”, dizia, todo humilde.

Meu jovem e saudoso amigo, Beto Surian, também foi criador da Noite de Vigília, evento que unia música e filantropia e agitou os anos 70 em Piracicaba. Promovia 18 horas ininterruptas de show no Teatro São José, enquanto eram arrecadadas doações para 35 entidades assistenciais da cidade. Durante a carreira, venceu 22 festivais de música. Seu corpo faleceu em 2009, aos 61 anos. Alma e espírito, porém, ainda vivem.

 

Quem Dá Mais

Beto Surian

 

Eu quero me ver em 1996

Pois eu quero saber

como vão ser as coisas por lá

Eu preciso me ver em 1996

E dizer sim ou não

aos processos de vida de lá

 

Outro dia eu sonhei que estava

numa arena gigante

Era eu o mais raro objeto

vendido em leilão

 

Gargalhadas soavam

por toda essa arena mercante

E eu era um palhaço sem graça

vendido em leilão

 

E eu olhava tudo calado

E eu levava fé nessa mão

E eu ouvia os preços gritados

E eu calava o meu coração

 

Quem dá mais por um cara

que ousou acreditar nos seus

Quem dá mais por um homem

que insiste na palavra Deus

Quem dá mais por um louco

que discorda do computador

Quem dá mais por um velho

ultrapassado que ainda crê no amor

 

Fui vendido afinal como tudo

no grande mercado

Mas meu medo acabou

quando alguém me tocando falou:

Este povo um dia já foi

por meu pai perdoado

E eu também fui vendido,

pregado e nada mudou

 

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