O notável Archimedes

Archimedes Dutra

Archimedes Dutra

Archimedes Dutra foi, a partir da segunda metade do Século XX, o mais conhecido e premiado dos Dutra. Filho de Joaquim Miguel Dutra e de Malvina de Almeida Dutra, Archimedes nasceu em Piracicaba em 6 de junho de 1908, morrendo em 1º de julho de 1983. Formou-se professor em 1927, pela antiga Escola Normal Oficial de Piracicaba, hoje “Sud Mennucci”. Foi professor da atual escola “Dr. Álvaro Guião”, selecionado por concurso público em 1929, no qual obteve o primeiro lugar. Com seu irmão Antônio de Pádua Dutra, foi o criador do ensino de “Desenho Pedagógico” nas escolas normais do Estado de São Paulo. Em 1948, diplomou-se em Belas Artes na Accademia di Belli Arti, de Roma, sendo o primeiro aluno de sua turma. Em 1950, tornou-se, por cotejo de títulos, professor de Desenho Artístico da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, onde veio a doutorar-se em 1973. Lecionou no curso de Ciências Domésticas da ESALQ.

Em Piracicaba, a presença de Archimedes Dutra foi constante em todas as atividades sociais, não apenas nas artísticas, nas quais ele despontou. Entre as suas grandes contribuições, foi o autor da Medalha do Bicentenário de Piracicaba (1967), do Marco da Bandeira, na Praça José Bonifácio (1955), do projeto do Estádio Barão de Serra Negra, da sede da Sociedade Beneficente 13 de Maio, da mansão residencial da Usina Monte Alegre, criador da Pinacoteca Municipal de Piracicaba e do Salão de Belas Artes do município. Archimedes Dutra foi um dos mais premiados artistas piracicabanos,
nacional e internacionalmente, contando-se às dezenas as medalhas que conquistou.

A delicadeza do belo

A figura de Archimedes Dutra sabe-me à sobriedade. Um homem sério, alto, forte, introvertido pelo menos em público. Seu porte era heráldico, apolíneo. Desde a minha infância – subindo e descendo a Rua 15 de Novembro – via-o, com meus coleguinhas, na sacada de sua bela casa. Bela e misteriosa, pois parecia guardar segredos e mistérios insondáveis. E guardava, pois lá estavam o tesouro artístico de Archimedes Dutra, suas obras, seus projetos, telas e esculturas de outros artistas.

Archimedes tornara-se, além de ícone de uma terra e de um povo, uma esfinge que parecia dizer-nos “decifra-me ou devoro-te”. Sua maneira sóbria e formal de ser ocultava, no entanto, uma passionalidade que se lhe manifestava na obra e no amor. Pois, com sua companheira Zoraide – paixão de sua vida – Archimedes desafiava, olimpicamente, toda uma sociedade à época moralista: não eram casados, pois o divórcio de uniões anteriores lhes era vetado. Eis, então, o Archimedes Dutra, herói de uma juventude iconoclasta, a nossa: ele desafiava os cânones da Igreja Católica, que reprovava aquela união amorosa, toda ela feita de arte também espiritual.

A grandeza moral de Archimedes Dutra era tamanha que – nas solenidades oficiais – Bispos da Diocese viam-se obrigados a estar ao lado dele, quando a Igreja propunha que o clero se afastasse dos “amantes” e não frequentasse os mesmos ambientes. As pessoas, nas ruas, paravam para ver Archimedes Dutra passar. Reverenciavam-no. E se acanhavam diante dele. Eu mesmo – que me aproximei, como jornalista, muito dele – sentia-me intimidado em sua presença. O retrato escrito que faço dele é de uma estátua de bronze com alma tecida apenas com a delicadeza do belo.

[Estes conteúdo e imagem foram retirados do livro “Piracicaba, a Florença Brasileira”, de Cecílio Elias Netto. Saiba mais sobre esta e outras obras publicadas pelo ICEN.]

1 comentário

  1. Heloisa Piedade Meneghel em 09/10/2020 às 18:32

    Tive a honra de ser aluna do prof Archimedes no Sud Menucci . Ainda me recordo do traçado elegante das gregas na lousa . Pessoa admirável . Parabéns pela matéria.

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