Um panteão e Archimedes

picture (14)Graças ao Lauro Libório Stipp – com o apoio da Esalq – Piracicaba irá celebrar condignamente o centenário de Archimedes Dutra, herdeiro de Miguelzinho, esse que foi o pai das artes piracicabanas. Quem mais irá levar flores ao túmulo de Archimedes? Quem irá balbuciar uma oração de agradecimento. A perda da memória significa morte. Foi o que, em Tróia, matou o imbatível Aquiles: a memória perdida.

Ainda outra vez e inspirado por Archimedes Dutra, relembro a curta história, bela e trágica. Pois lição permanente. Na Guerra de Tróia, o oráculo previra que, se matasse um filho de Apolo, Aquiles também encontraria a morte. Para que lembrá-lo da profecia, sua mãe lhe deu um servidor, Mnémon, “aquele que se recorda ou que faz recordar”, a Memória. Mnémon, no entanto, falhou, Aquiles esqueceu-se da profecia e a tragédia anunciada aconteceu. Portanto, sem memória até os deuses morrem. Mesmo porque é a deusa Mnemósine, também personificação da Memória, quem, dormindo nove noites seguidas com Zeus, gerou as nove Musas. Musas e memória têm, pois, o mesmo umbigo.

A homenagem a Archimedes Dutra – e insisto na iniciativa louvável de Lauro Libório Stipp – é um estímulo para avivar a memória de Piracicaba, especialmente num tempo em que tanto se fala de redescoberta de identidade, de recuperação de valores. Archimedes – controvertido, polêmico, muitas vezes arrogante – é um dos ícones das artes piracicabanas, parecendo que o espírito de Miguelzinho Dutra iluminara, de maneira especial, o seu notável descendente. Quando Archimedes desapareceu, as artes piracicabanas não se interromperam, mas sofreram de um vazio profundo, como se lhe faltasse o referencial maior.

O Salão de Belas Artes de Piracicaba – mais do que cinqüentenário – é filho dileto e generoso de Archimedes Dutra, um sonho que ele nutriu juntamente com Eugênio Luiz Losso e o escritor David Antunes. O que tínhamos de mais esplêndido nas artes plásticas piracicabanas participou daquela mostra: Eugênio Nardin, Antônio Pacheco Ferraz, Gilberto Dutra. E lá se foram Losso Netto, Bertico Thomazi, Álvaro Sega, Joca Adâmoli, Manoel R. Lourenço, Frei Paulo, entre outros pioneiros daquele salão. Com Archimedes, quase todos eles nos olham das nuvens, pintando arco-íris.

Antes do término de seu mandato, o prefeito José Machado, em conversa informal, falou-me de um de seus projetos irrealizados: o de criar o “Panteão de Piracicaba”, onde pudéssemos honrar e celebrar a memória de nossos ancestrais notáveis, paradigmas de um povo ao longo da história. A inspiração de José Machado brotou-lhe, penso eu, da fundura dos séculos. O panteão que os romanos ergueram a seus deuses foi, de certa forma, a maneira de manter vivos o respeito e a devoção. Tal como na iconografia e no calendário cristãos, cada dia consagrando a memória viva de seus luminares.

Entre pontes e rotatórias, entre apetites apenas materiais, Piracicaba está faminta dos valores do espírito. Por isso, ao lembrarmos que a Memória gerou as nove musas, a intenção foi, também, a de recordar que Museu – além de poeta, músico, amigo de Orfeu – passou a simbolizar um espaço, o lugar das musas. Portanto, memória, museus – apesar de tolos que os vêem como passadismos – significam vida. Sem a memória, como aconteceu com Aquiles, morre-se. Sem museus, não há onde as musas se encontrarem.

Pensar nos centenário de Archimedes Dutra – e render graças – talvez, nos servisse para captar os sinais dos tempos, ouvir os sussurros da memória. Por que não um panteão de nossos grandes homens numa das imensas áreas do Engenho Central, à beira do rio inspirador? Bom dia.

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