In Extremis (9) – A bênção da saudade

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(imagem: reprodução Pixabai)

Pensei em usar o talvez, mas decidi pelo certamente. Logo, a saudade, para mim, é, certamente, a mais dilacerante das dores humanas. Pois a alma dói mais do que a carne.

Estudiosos afirmam que, quanto mais sensível, mais a pessoa sente a dor física. O bruto resiste melhormente, o homem sofrido sofre menos. Assim, também, é com a alma, que sempre oscila nos pratos da balança, o do coração, o da razão. Esta insiste, teimosamente, em vencer aquele, negando-se a aprender o que Pascal já descobrira: “o coração tem razões que a razão desconhece.” Tão repetido, tão óbvio e tão tolamente ignorado…

Haveremos de aprender a usar a razão para ouvir e obedecer ao coração. Algum dia. Sentir é mais do que saber. E sentir sente-se no coração.  Sentimento, pois, é mais do que conhecimento. Há necessidade de muitos e muitos saberes para se adquirir um mínimo do saber. E é na sabedoria de viver que reside o maior de todos os saberes, o verdadeiro saber. Se não se sabe viver, como, então, será possível dizer-se estar vivo?  Temos sido nós mesmos, como gostaríamos que fôssemos, ou somos apenas o que pensamos seja o desejo de outras pessoas? A pergunta permanece: “que rei sou eu?”

Com a morte de João Gilberto, a saudade voltou a gemer nos corações brasileiros: “Chega de saudade!” E creio tenha havido uma concordância coletiva: todos temos saudade. De algo, de alguém. Criança tem saudade. Mas poucos, penso eu, conseguem entender seja a saudade um bem na vida do ser humano, uma graça, uma bênção. Na juventude, professores diziam-nos que saudade é palavra sem definição, sem correspondente em outra língua. No entanto, atribuía-se a Ruy Barbosa uma exemplar tentativa de defini-la. E ela me acompanhou pela vida: “Saudade é vontade de outra vez!” É maravilhoso. Pois somente se tem vontade de outra vez à recordação do que nos encantou, daquilo que nos fez bem. Ninguém tem saudade da doença, do sofrimento, da dor. A exceção, talvez, sejam aqueles suspiros das “dores de amores”.

Saudade é ausência do que não se substitui. No entanto, apenas se perde aquilo que já se teve. Perder é o depois do ganhar. Desgraçadamente, somos herdeiros de um paraíso perdido e, portanto, órfãos e viúvos de pessoas amadas, deserdados de tesouros que nem sequer chegamos a avaliar. “Saudade mata a gente” – canta o poeta popular. E, realmente, mata. Sou testemunha ocular disso: meu pai morreu de saudade de minha mãe. Vi-o tombar sobre o túmulo dela. Como, então, estou aqui escrevendo sobre uma benção que mata? Que bem seria esse? Por paradoxal pareça, é como a vida: a vida mata. O vivo morre.

De certa forma, a saudade tem parentesco com o infinito. Pois eterniza quem foi amado. E, em toda essa dor, não percebemos o significado principal: onde houver saudade, o amor sobreviveu. É quando que o mistério se revela de uma assustadora simplicidade: o amor realmente vence a morte. A bênção da saudade deve estar no segredo de ela carregar, quando nos chega ao coração, tudo aquilo de que somos feitos. A saudade constrói a memória das pessoas, da família, da humanidade. A história humana, toda ela, é feita de saudade, de lembranças e recordações que nos marcam a fantástica caminhada na aventura de viver.

Talvez, a maior das lições tenhamo-la, ainda, que aprender, a lição da saudade. Quem resiste à dor da saudade é um sobrevivente. E sobrevive à espera de outra vez. Ao se sentir morrendo de tanta saudade, o homem nada mais faz do que sonhar com as maravilhas que conheceu. Viver, pois, é sonhar. Sonhemos, então.

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