Os campeões da solidariedade humana em Pirapitingui

Fotos: IDALlO FILETTI

Texto de João Chiarini para a Revista Mirante, escrito em 1960.

Pirapitingui entremeia as remotíssimas Itu e Sorocaba. A fita de asfalto passa à sua frente. De um lado os doentes e doutro os sãos. A sua área alcança 360 alqueires paulistas.

O seu diretor, há 12 anos, é um leprólogo avançado, altamente estudioso, a par com toda literatura hanseniana. Chama-se Francisco Ribeiro Arantes. As suas inflexões dizem-nos que o homem é mineiro.

Com ele conversamos 90 minutos. Verdadeira sabatina. Nunca aprendemos tanto. O que sabíamos era errado e perigoso.

Depois, ouvimos o anatomo-patologista Carvalho. Figura impressionante. Com ele estivemos quase 2 horas. Mais perguntas do que contribuição nossa.

Enquanto palestrávamos, o nosso pensamento retomou a tudo aquilo que é grandioso, obra exclusiva da solidariedade humana.

A pomicultura, o campo de futebol, a cancha de bocce, a cadeia, com leprosos-dementes, com leprosos-criminosos; as igrejas das várias religiões, as colônias, a maternidade, o centro-cirúrgico, o gabinete dentário, a secção de dermatologia, o cine-teatro, o clube recreativo-dançante, todo de eucalipto tratado; o japonês de Osaka, o negro,os caboclos, jogando o truco italiano, na mesma mesa; os leprosos debéis-mentais; o frade de São Francisco, enorme, rechonchudo, explicando-nos eletrônica, o padre alemão maltratando esta pobre língua, que portuguesa não é!

A emissora PRC-2, com o Altafin, coração maior do que o corpo, atencioso, igual. Aliás, em Pirapitingui todos se igualam. Sociedade profundamente socialista: sem preconceitos, sem segregações, sem pele, sem cor, sem ódios.

É evidente que o seu tipo predominante é o pobre. Não vimos um rico. Rans, disse-nos, que lepra é falta de sabão. E Hans é nome e ciência. Sábio sobretudo.

Um organograma mostra-nos como funciona leprocômio, que abriga agora 1918 doentes. Indica que vem decrescendo sempre.

O Estado dá 6 milhões mensais, 52 por cento destinam-se à alimentação. Outra circunstância para que a lepra se faça presente. Subnutrição, desnutrição são campos para que o indivíduo necessariamente seja hanseniano.

Ouvimos isso, do dr. Carvalho, mais paciente tolerante do que estátua.

Vemos os caminhões piracicabanos supercarregados. Um milhão em espécie. Vimos também autos, ônibus, gado vacum de nossa terra.

As filas, as mais disciplinadas, mesmo sob o sol causticante, não se aborrecem, nem protestam. Todos recebem. Aqueles que não têm mãos, contam com a ajuda dos que podem transportar a cesta e os pacotes. Há os que transportam em bicicletas, carrinho de mão.

Os 10 caminhões foram religiosamente entregues. No “show” sorteiam-se os presentes mais caros. Vimos uma “colored” receber um casaco de pele; outro, um colchão de molas. Não há ciúmes nem inveja.

É realmente uma população que sorri, que acenou o lenço à nossa chegada e, chorou amargamente a nossa saída. Piracicaba, há 17 anos, cumpre uma obrigação. Damos 1,2 por mil anualmente a Pirapitingui.

QuandoAltafin ao microfone pronuncia o nome de Ismael Corazza, a gente sente que o homenzinho é um ídolo naquela cidade-enfêrma, venerado e amado, impõe confiança e alevanta a esperança mesmo daqueles que a ciência já considerou como “ferro-velho”.

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