“In Extremis” (98) – Humanos sem Humanidades

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Escultura budista. (imagem de Helena Cuerva, por Pixabay)

Está cada vez mais evidente o ocupante da presidência da República, com seus aliados, pretender tornar o Brasil uma “nação evangélica”. Isso é desrespeito. Propondo-se a fazê-lo, ele apenas repete o que, desastradamente, a Igreja Católica objetivou, através dos séculos, com a utópica pretensão de criar uma Cristandade. São imperialismos ideológicos absolutamente superados num mundo que se assumiu pluralista. E, por pluralismo, entenda-se, também a diversidade das cosmovisões não-cristãs que animam a humanidade.

Esse flagrante fanatismo religioso deveria, no entanto, servir-nos para uma reflexão mais profunda diante da medrosa apatia com que, política e culturalmente, vimos considerando o ensino das Humanidades em nosso país. Incluindo a instrução religiosa. Desde a necessária separação entre Igreja e Estado, passamos a viver o que me parece uma cascata de equívocos: ignorar o que existe. Em nome, talvez, do respeito às mais variadas crenças, criamos uma cultura do avestruz, enfiando a cabeça no buraco da indiferença. Por que sonegar, às mais novas gerações, o direito a conhecer fontes de espiritualidade pertencentes às mais diferentes culturas do mundo? E que são fundamento da própria civilização?

Minha formação da juventude foi salesiana, repleta das Humanidades, numa época de verdadeira ditadura religiosa. Foi-nos revelado um mundo de riquezas, mas, também, de problemas. Pois a imposição religiosa mostrara-nos apenas visões tristes, pessimistas de mundo. Isso ocorreu, também, em outras escolas confessionais, que Piracicaba as teve secularmente. Mas aquele foi o grande equívoco de imposições ideológicas, pois não há como negar sejam, as religiões, também ideologias, propondo visões de mundo. Não deveria tratar-se, pois, de “evangelização, de catequização” de pessoas ou de comunidades. Haveria que reconhecer séria e honestamente que religião é parte fundamental das Humanidades e, portanto, da formação humana. Logo, as gerações têm o direito de ser informadas, de ter acesso a tal conhecimento. Instruir os jovens em Humanidades não é proselitismo. Creio ser nosso dever.

Se pretendermos estimular a juventude para a universalidade, por que negar-lhe informação a respeito das religiões que fermentam os povos? Não se trata de convertê-los, mas, apenas, de informá-los. Como entender a avassaladora influência da China, já às portas do Ocidente, se se ignorar a formação espiritual de seu povo, a sua maneira de ser? Como desconsiderar a riqueza cultural do Budismo, do Confucionismo, do chamado “universismo chinês”?

O materialismo individualista já começa a robotizar a civilização ocidental. Sequestraram-se o espírito dos povos, a alma das gentes. O ser humano ficou esquecido em sua dignidade. Nega-se-lhe o direito à escolha da própria vontade. E isso deu margem a oportunismos sem fim, incluindo os de caráter religioso e ideológico. Escancarou-se um campo fértil a messiânicos arrivistas, sugadores do desespero de populações desinformadas. Já aconteceu. E as ameaças aumentam. Há um moedor de espíritos humanos.

Instrução religiosa – no contexto das Humanidades – não é catequização. Instruir é, no mínimo, informar. E soa absurdo – num mundo globalizante – desconhecer a história das religiões universais, Judaísmo, Cristianismo, Islamismo, Budismo, Hinduísmo, a sabedoria do Confucionismo. Conhecer – mesmo elementarmente – tal admirável saga é descobrir a estupidez de sectarismos e preconceitos religiosos. Apenas por isso, já valeria a pena.

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