Thereza Alves: “O palco é minha benção”

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Aos 77 anos e com 60 de carreira, a cantora piracicabana Thereza Alves anda cheia de planos. Depois de ganhar o Troféu Governador do Estado na área de música, ela prepara o lançamento de um disco, usando inclusive as plataformas digitais. Nesta entrevista, Thereza conta que nunca teve ilusões com a fama e por isso se formou em administração para poder ajudar a família.

 

A Província – Como foi receber o Prêmio Governador do Estado?

Thereza Alves – Foi uma coisa muito comovente para mim, depois de 60 anos de palco. Estou meio acostumada com homenagens, são muitos anos. O povo tem um carinho muito grande. Mas o prêmio eu não esperava. Vem de outra alçada, não é da minha cidade. Em cada categoria, tem duas espécies de premiação: do júri e popular. Eu fui eleita pelo voto popular.

Aliás, com mais de 70% dos votos, não?

Tive 88% dos votos! Fiquei muito feliz, porque a gente sabe que a maioria dos votos saiu da nossa região.

O que significa que você tem um público fiel.

Acho que seria pretensão da minha parte dizer que eu tenho um público fiel. Mas fica claro o carinho por alguém que começou a cantar com 15 anos.

Começou a cantar aqui?

Sim, nasci em Piracicaba, e comecei a cantar na verdade com sete anos. Estudava no Instituto Baronesa de Rezende. E fui tomando gosto por causa de uma freira, já idosa, que dava aula de música. Então, em todos os eventos do colégio eu estava lá, cantando.

Cantava para os visitantes?

Cantava em todo evento, Dia das Mães, Dia dos Pais. Depois fui cantar na igreja Imaculada Conceição, em casamentos. Cantava aquelas Ave Marias lindas!

A família apoiava?

Enquanto eu estava nesse nível amador, estava tudo bem. Quando eu resolvi encarar o palco pra valer, e fui participar de um programa de calouros na Rádio Difusora, meu pai não gostou muito.

Ficou preocupado?

Você sabe que mulher sempre carrega o estigma! E a gente levava um rótulo pesado, porque artista, naquela época, era uma moça que não tinha família. Mas para mim o dom foi mais forte do que qualquer impedimento. E minha mãe entendeu isso.

Ela te apoiou?

Conversou com meu pai, forçou um pouco a barra e sempre me acompanhou. Não era pra me proteger, ou impedir que alguém chegasse. Era porque eu gostava que ela fosse junto comigo. Ela me dava reforço emocional, um respaldo. Porque enfrentar público no começo era difícil, eu era uma menina acanhada.

Lembra que música cantou?

Abandono, da Ângela Maria. A Ângela estava no auge e todo mundo cantava as músicas dela.

Ela sempre foi uma referência sua?

Não posso negar que foi. Eu e quase todas as moças que cantavam naquela época. Fiz uns trabalhos com ela. Depois tive um programa próprio na rádio aos domingos. A partir daí comecei a ir a São Paulo, sempre com minha mãe, para fazer rádio e televisão.

Ia em que programas?

Fazia Rádio Bandeirantes, um programa sertanejo, do Capitão Furtado. Mas não cantava música sertaneja. Participei de um concurso desse programa e, entre 1626 candidatos, fiquei em primeiro lugar. E ganhei uma gravação na RCA.

O que gravou?

Gravei uma música do próprio Capitão Furtado, chamada Zé Vicente. Depois gravei Piracicaba e Luar do Sertão. A partir daí, comecei a tomar mais gosto pela coisa. Comecei a atuar na TV Paulista e na Record.

Não sentia que para deslanchar na carreira, teria de morar em São Paulo?

Não. Sabe por que? Sempre fui muito equilibrada. Vim de uma família pobre, meu pai pedreiro e minha mãe auxiliar de enfermagem. Tiveram quatro filhos que criaram com muito amor mas com poucos recursos. Meu sonho era estudar, para ter uma profissão em que dependesse só de mim. E para ajudar a família.

Como artista isso não seria possível?

Porque depende da aceitação das pessoas. Acho que amadureci muito cedo em decorrência das dificuldades de sobrevivência. O canto sempre foi muito importante para mim, sou profissional na área de música, mas nunca dependi dele para sobreviver. Essa decisão veio de mim, não houve imposição. Eu via as dificuldades que meus pais tinham para nos criar.

Foi estudar contabilidade?

Fiz, em nível técnico na Escola Técnica Cristovão Colombo. Quando consegui meu primeiro emprego, abriu a Unimep e sou da primeira turma de formandos. Fiz administração.

Ficava dividida entre as duas carreiras?

Nunca! Fazia as duas coisas ao mesmo tempo. Trabalhava num escritório de contabilidade até quinta-feira. Na sexta já ia para São Paulo. Era uma vida muito corrida. Eu amo o que faço, mas nunca me iludi. De querer se matar por causa de um sucesso que não depende de mim.

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Preferiu se garantir com a contabilidade?

Olha como é a necessidade de sobrevivência! Na área administrativa já me aposentei, mas tenho um escritório. Hoje minha filha, que se formou na mesma área, toma conta. Porque tive um paizinho que morreu aos 96 anos. Precisei ficar em casa para cuidar dele. Porque nunca tive coragem de deixá-lo na mão de outros.

Não se arrepende de nada?

Absolutamente nada. Nunca fiz nada por impulso.

E quando dizem “Thereza, você poderia ter sido uma estrela”, o que sente?

Nada! Tudo foi uma escolha. O palco me basta. Veja que, depois desses anos todos, ainda estou colhendo frutos.

Nunca se preocupou com fama?

Fama é uma coisa tão efêmera! A gente vive num país onde não se dá muito valor pra artista. Se fosse assim, os artistas mais idosos não estariam esquecidos.

Hoje é tudo muito rápido.

Deixa de lado o talento. A carreira é muito curta e não dá para mostrar nada além do corpo. Música moderna eu gosto, desde que tenha qualidade. Depois de tanto tempo, você aprende a ter uma sensibilidade maior. Tem meninas, como a Maria Rita e a Marisa Monte, que adoro.

Então, você não é saudosista?

A gente tem de acompanhar a evolução. Não posso ficar lá atrás, tenho de me atualizar. Mas tenho de ver que existe hoje uma coisa massificada, martelando aquilo na cabeça da moçada! O ser humano está desvinculado de sentimento. Ninguém mais fala de amor.

E continua se apresentando?

Agora bastante, desde que me aposentei tenho mais tempo. Eu canto todos os gêneros. Quando faço um show, já tenho repertório todo montado. Gosto mais de fazer em casa de espetáculo. É difícil eu cantar em bar. Não tenho nada contra. Mas ninguém presta muita atenção.

Como reage nesses casos?

Dá uma certa frustração, mas tenho de tirar de letra.

Em que pé está a gravação de seu CD?

Tentamos por financiamento coletivo, mas não conseguimos. Está difícil. Então estamos montando EPs, que são gravações menores. Depois monta o CD. Estou usando plataformas digitais, tudo que você possa imaginar!

E o repertório?

São canções inéditas, incluindo dois autores daqui, o Saulo Ligo e o André Bertini. Você não pode imaginar o baú de coisas maravilhosas que esses meninos têm! E dentro do gênero que gosto, que é o romântico.

O que falta em Piracicaba?

Locais para se apresentar. Dá uma tristeza ver o Teatro Municipal fechado! Acho um pouco caso com os artistas da cidade. E para o público também. E os barzinhos só dão espaço para o sertanejo.

Mas se sente realizada?

Com a idade que tenho, lutei para ter tudo que consegui. Tenho meu canto, meu aconchego. A partir daí, em tudo que você fizer você se realiza. Eu sou muito grata a Deus pelo que tenho, por ser bem casa, ter meu marido, meus filhos, meus cachorros. E ainda fazer a música que gosto. Porque o palco é minha benção!

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