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O amado “Zinho Muié”

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Símbolo Yin Yang. (imagem: Vector Stock.com)

Naqueles tempos, não existia o “politicamente correto”. Confesso não saber explicar, pois tanto tempo já vivi que não consigo dizer, com exatidão, quando e quantas vezes as coisas mudaram. Lembro-me, porém, de ter havido época em que elas, as coisas, eram como eram. Ou pareciam ser. Assim, quando se referia a alguém por ele ser preto, era, simplesmente, por ele ser preto. Não se falava em ofensa, em preconceito. E não se usavam palavras como gays, homossexuais. Quem o fosse, de gênero masculino, era “viado”.

Piracicaba, ontem e atualmente, conviveu com homossexuais. Uma quase sempre atribulada convivência, que se tornou pacífica nas últimas décadas. Mas, em vez de “gays”, eles eram chamados de “viados”, como em quase todo o Brasil. E tal palavra – como as de lazarento, morfético, leproso – sempre teve, além do significado pejorativo, uma conotação amistosa. Um amigo saudava o outro: “Olá, seu viado, como vai” O outro podia responder: “Vô bem e ocê, viadão?

Não havia, porém, muitos “viados” assumidos. Pois eles, como se diz desde alguns anos, não saíam do armário. E quando saíam, faziam-no divertida e alegremente. Foi o caso de “Zinho Muié” e de “Jane”. Este, mais discreto, era alfaiate respeitado, fazedor de vestimentas especiais, como batinas para padres e hábitos para freiras. Mas não se dava a ostentação. E nem se irritava quando provocado pelas crianças. “Zinho Muié” era espalhafatoso, mostrando-se, às vezes, verdadeiro “clown” ao sair às ruas – e desfiles de Carnaval e bailes populares – “vestido de mulher”. Foi um verdadeiro travesti, muito antes de existir essa palavra. Daí o seu apelido: “Zinho Mué”, ele, de nome Alex.

“Zinho” era recebido em qualquer residência, “gente da casa”, oferecendo seus serviços de cabeleireiro, manicure, esteticista. Criancinha que eu era, lembro-me de ele agitar nossa casa quando ia “fazer o cabelo” de minha mãe e irmãs. As crianças gritávamos: “Zinho Muié”. E ele respondia, como o Bento Chulé: “Seu rabo que é.” Amado, inesquecível Zinho, personalidade adorável.

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1 comentário

  1. Glauber Oliveira Campos em 20/09/2021 às 20:23

    Muito legal as histórias da epoca.Piracicaba é um lugar unico.

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