Crimes que abalaram Piracicaba

 

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Hotel Central/IHGP

Esse texto foi publicado em setembro de 1988 no semanário impresso A Província. Recuperamos para lembrar os 30 anos de atuação em Piracicaba.

13 de novembro de 1899. Local: centro da cidade. Os relógios marcavam 13 horas quando o pintor José Ferraz de Almeida Junior foi morto pelo seu primo, José de Almeida Sampaio, na porta do Hotel Central, que ficava ao lado da Matriz. O motivo do crime: uma mulher.

Numa época em que o pintor esteve em Paris, o primo frequentou a sua casa, que ficava na Rua da Glória, em São Paulo. Numa cômoda, encontrou inúmeras cartas de sua esposa a Almeida Júnior, declarando um grande amor. Nas cartas, ainda, a mulher, que era modelo do pintor, fazia acusações morais contra o marido. As correspondências foram publicadas na revista Piracema, exemplar nº 2. “As cartas foram o motivo”, fala o advogado João Chiarini, que recorda de vários crimes que abalaram a cidade.

No dia 13 de novembro, Almeida Junior veio para Piracicaba de trem (Sorocabana), enquanto que Sampaio, que estava em São Paulo, viajou de trole, fazendo o percurso Jundiaí, Monte Mor, Mombuca e Piracicaba. Almeida hospedou-se no quarto nº 13. Às 13 horas, desceu. O primo avançou em sua direção e cravou um punhal na altura da região clavicular, atingindo o coração.

O artista ficou estendido na calçada, em estado hemorrágico. Ninguém o socorreu porque era monarquista. Foi o pessoal que trabalhava no jornal O Piracicaba quem acabou socorrendo. “As pessoas tinham medo porque estávamos em cima da República. Tinham medo dos milicos”, conta Chiarini.

O assassinato do pintor foi um escândalo nacional. Em seu enterro vieram as bandas de Itu, São Paulo e Campinas prestar as últimas homenagens ao pintor consagrado. Ele foi enterrado no Cemitério da Saudade. O túmulo era repleto de jasmim, cuidado por Joaquim Dutra. “Quem entrava no comitério até antes de 1943 chegava ao túmulo de Almeida pelo cheiro das flores”, diz. Mas naquele ano o túmulo foi substituído pelo mausoléu com características modernas.

O crime, presenciado por Francisco Morato, que estava na porta da igreja, resultou em um enorme processo, que acabou desaparecendo, segundo Chiarini, que o manuseou até 1962. O primo, no entanto, foi absolvido.

Um acento

Outro caso que chocou Piracicaba foi uma tentativa de homicídio por causa de um acento na palavara psyque (ou psyquê)? O desentendimento aconteceu entre um professor de geografia da Escola Normal Ophicial de Piracicaba, Antonio Moraes Sampaio, e o professor de português Sylvio de Aguiar Souza.

Foi em janeiro de 1935, na esquina da rua XV de Novembro com a praça. Antonio Moraes estava no bonde quando foi atingido. Mesmo ferido, desceu e atingiu Sylvio com um punhal. O caso foi a juri e eles foram condenados com penas brandas, com direito a sursis.

Mas o crime considerado mais violento por Chiarini foi cometido pelo ex-gerente do Banco do Brasil, Aniceto Monteiro, que morava onde ficava a casa do bispo, na rua Governador com a Regente Feijó.

Aniceto procurou o namorado da filha, o acadêmico Borbinha, na rua Prudente de Moraes, esquina com Benjamin Constant, onde havia uma república de estudantes da Esalq. Assim que o moço apareceu, ele, sem titubear, atirou, matando o estudante. “Borbinha tinha desmanchado o namoro com sua filha, uma das moças mais bonitas da cidade”.

O crime revoltou a população. Borbinha não teve chance de defesa. O julgamento de Aniceto durou 27 horas e aconteceu na rua Santo Antonio, onde hoje está instalada a Caixa Econômica Estadual. Aniceto gastou uma fortuna para contratar o advogado Dante Delmanto. Sua atuação foi brilhante e mais tarde Delmanto registrou o caso no livro Os Grandes Júris que Fiz.

Outro crime lembrado por Chiarini foi o de Carlos Raya, que matou, “com desafeto”, sua amiga. Foi um bordel que ficava na rua São José. “Na rua Benjamin Constant, entre a São José e a Regente, eram só bordéis”, recorda o advogado. Um deles era local de reunião dos filiados ao Partido Comunista. “Os integrantes se reuniam camufaladamente, sem que a polícia percebesse”, diz.

Ninguém ousava passar pela Benjamin antigamente: as pessoas subiam pela Moraes Barros. Carlos Raya, que foi o primeiro soldado a alistar-se voluntariamente para a Revolução de 32, encontrou sua amiga com outro homem, e “com toda valentia, a matou”. Foi condenado a seis anos de prisão e cumpriu um terço da pena.

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