Emília do Brasil, uma história inacabada (1)

Quando se rebusca o passado, na maioria das instituições brasileiras praticamente desconhecido e relegado ao esquecimento, normalmente as descobertas são ricas. Até mesmo em arquivos dos museus, muitas vezes pouco manuseados, a história pode ser redescoberta em detalhes preciosos. O documento que segue pertence ao acervo documental do Museu do Instituto Educacional Piracicabano, tendo sido traduzido por sua responsável, Zuleica Mesquita. Dele não se conhece a origem, nem a data, mas presume-se que tenha sido escrito por uma sobrinha de Miss Marta Watts, a fundadora do Colégio Piracicabano, em 1881. Entre tantas revelações, a mais significativa: alunos brasileiros, anos depois da morte de Miss Marta, fizeram questão de homenageá-la com um memorial na cidade onde estava enterrada.

Martha Watts

Martha Watts, a missionária norteamericana que viveu em Piracicaba.

Quando minha “tia Mat” (apelido de Martha) estabeleceu escola em Piracicaba, Brasil, 1881, Emília Souto tinha 12 de idade e foi uma de suas primeiras alunas. Ela cresceu dentro da escola e sob a supervisão da minha tia.

Eu não me lembro de ter ouvido falar que ela tivesse tido um parente. Sua adolescência foi dentro dos muros da escola (Colégio Piracicabano) e ela tornou-se como uma filha para minha tia, a afeição era mútua. Os anos passaram-se e ela saiu da escola para casar-se, com a aprovação de sua protetora.

Jimmy Wittet, como minha tia o chamava, era um jovem dentista, e o lar que eles constituíram tornou-se o lugar onde minha tia ia para um descanso rápido da rotina da escola. Os dois garotinhos que o casal teve foram ensinados a chamá-la de avó, pois, para Emília, esse relacionamento era real. O grande desejo dela era vir para os “States”, como ela chamava nosso país. Ela conhecia os nomes de todas as sobrinhas (de Martha Watts) e eram muitas naquele tempo, e ela havia aprendido a repetir, rapidamente, em ordem de idade, os nomes dos dez filhos de minha avó, contando-os nos dedos para não esquecer nenhum.

Pouco tempo depois do seu casamento com Jimmy, outro jovem dentista chegou de Filadélfia para se estabelecer em Piracicaba, mas sentiu tanta saudade de sua casa que estava prestes a desistir e a voltar. Uma das missionárias sugeriu que ele tentasse se hospedar na casa de Emília e Jimmy Wittet. Ele, então, estabeleceu-se naquele lar. Foi uma amizade duradoura, e quando chegaram os filhos do casal Wittet, ele adorou as crianças. Quanto mais cresciam, mais amor o Dr. Potter sentia por eles. Não se sentindo mais solitário, ele permaneceu no Brasil e continuou como hóspede da família.

Quando “tia Mattie” veio a casa, em licença pela última vez, Emília esperava vir com ela, mas um feliz acontecimento impediu-a de viajar.

Chegando à América no ano de 1909, “Tia Mattie” foi quase que diretamente para a Conferência Anual, que reunia-se naquele ano em “Greenville”, onde ela deveria prestar relatório.

Quando ela entrava na carruagem, em Greenville, para ir à estação do trem que a levaria de volta a Louisville e a nós, ela teve a infelicidade de cair e fraturar o quadril. Depois de enfrentar cerca de sete meses de imobilização, descobriu-se que ela estava com câncer, e, não muito tempo depois, passou para seu lar celestial, em 30 de dezembro de 1909.

Entre as muitas cartas de condolências que chegaram do Brasil, chegou uma contendo um pequeno envelope com a participação do nascimento da filhinha de Emília e transmitindo seu sincero pesar pela perda daquela que considerava sua mãe.

(continua)

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