Nhô Lica, Felix, feliz

O nome dele era Amarar Mello. E, despoi do Mello, tinha Bonilha. E, antes dos Amarar Mello Bonilha, tinha Felix, nome de sê chamado: Felix de feliz, Felix de ressuscitado, nome que os pai dele quis. De ansim, pois, ele se chamô: Felix do Amarar Mello Bonilha, figura nascida pra ficá em medalhão, cuberto cum rendilha. Mai num ficô coisa ninhuma de tuda essa bestera. Pra nói, caipira da terra e dium tempo bendito, desses Amarar e dos Mello, do que foi belo e dos Bonilha, nome mai bunito que rendilha, nome que fica é Nhô Lica.

Num sei, do que vô escrevê, se falo do que me contaro, se do que os outro sonharo, se de coisa que sonhei. Sei só que, sonhado ou contado, acreditei. Fiquei incantado, num inventei. Pra falá da mais pura verdade agora que já tô véio, que tenho idade intendo o que Nhô Lica representava, naquelas tarde ociosa de cidade preguiçosa, dias que num se acabava. Vindo do rio ropa de pobre, mai cum terno e gravata subindo a Moraes Barros, lá surgia um home cum brio. Num era bravata: Nhô Lica sortava escarros; capengava, fungava, suava à beça na caminhada sem pressa. E, na cabeça, por estranho pareça, usava chapéu. E, na mão, a bengala. E eu, olhando pro céu, ia chamá Leninha, ia chamá-la. É que, pra mim, inda criança, tinha surgido: Nhô Lica, cum ropa dos morfético, parecia loco, mai era profético. Ele catava onde num tinha nada rubi, diamante e ametista: Nhô Lica, meu João Batista.

Ai, adonde foi o sonho? E a esperança, adonde ponho? Essa é a herança que fica: aprendi cum Nhô Lica que cada pedaço da Cidade pedreguio, rebolo, pedrisco e cisco, graveto e calhau — nome num importa, num faiz mal, é tesoro, coisa de guardá que nem ôro. Nhô Lica ai, como me alembro! Carregava as pedra, de janero a dezembro, pra tudo mundo encontrá elas na praça da Matriz. Era o lugar da grória, um cururu de vitória. E Nhô Lica  Felix, o feliz — tirava as pedra do borso, num suspiro de grande esforço, e dizia para quem num subesse entendê: Hómes de poca fé, oceis tem que aprendê. Isso é pedra preciosa, catei elas na marge do rio, marge generosa. É tesoro que num se acaba. Meceis tem que tê juízo. Aqui é o Paraíso. O nome é Piracicaba.”

A Cidade brincô de guardá pedra de Nhô Lica. Ai!, porém, a lição que me fica: tudo nói herdemo lição do andarilho, do loco da roça, da troça. Na Praça da Matriz, tudo mundo, feliz, fingia recebê as jóia do maluco. Ninguém tinha medo dele, um eunuco. E tudo nói fingimo: meu pai e eu, esperano Nhô Lica; a fingida de Dona Lilica, mãe da Vivica; seo Gustavo, gerente do banco, comprando pedrinha por centavo, por preço nenhum. E seo Mitierieri, miserere”. E o Mozár do Cartório, o dono do bar, o finório, gente do jogo-do-bicho, catador de lixo, professor, dotor. E cada muié infiliz, vendo brilhante como se fosse de amante, vendo o véio maluco incontrano lucro: Na Praça da Matriz, um loco me quis.”

De jóia de Nhô Lica, ninhum de nói tem guarda. Nem pedreguio e nem esmerarda. Mai um padrezinho que, de padre, se tornô Meusinhô, Meusinhô Rosa inxergô mai do que nói inxerguemo. E Meusinhô Rosa o Padre Rosa quando a Matriz se tornô palácio de nome Catedrar, mandô tacá, nos alicerce dela, o que pudesse parecê catacumba, túmulo, tumba de santo. Foi seu pranto. E sua alegria. Foi herança, esperança, visão generosa de um padre sonhador, Meusinhô Rosa, Monsenhor:

– No alicerce dessa igreja matriz, taco as pedra de Nhô Lica, o hóme filiz… Sant´António me adiscurpe e me adiscurpe a Virge dos Prazer. Se, em Piracicaba, é o pexe que fica, aqui nessa igreja quem fica é Nhô Lica.

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