“Se esta rua fosse minha”

Num debate, o músico perguntou: “Quem conhece artista querendo aposentar-se?” Ele próprio, feliz, dizia de seus quase 80 anos de idade vividos pela arte. E citava atores e atrizes: Tônia Carrero, Bibi Ferreira, Paulo Autran, outros. E Cauby, a voz qual trinado matinal de passarinho. O artista faz, da sua produção, algo benfazejo, o trabalho que lhe bem faz. Seu trabalho é vida. Então, trabalha para viver, não para sobreviver. É diferente.

Pensei nisso devido à campanha que o JP e prefeitura pretendem promover estimulando as belezas de Piracicaba, retoques que faltam, cuidados ausentes. E a proposta de eleger a rua mais bonita, a mais bem cuidada pelos moradores. E o trabalho benfazejo, onde entra nisso? São lembranças minhas. Pois, nesses dias, alguém quis saber do trabalho intelectual que mais me trouxe alegrias e prazer. Não hesitei: o jornal ”A Província”, o trabalho feliz. E foi nela que, há alguns anos, fizemos campanha parecida, o piracicabano falando de sua rua. E era esse o título: “se essa rua fosse minha …”

Na verdade, cada um de nós, “se essa rua fosse minha … “, saberia o que fazer dela: “mandava ladrilhar com pedrinhas de brilhante, para o meu amor passar.” Seria a mais encantadora das cidades. E, se não tem sido, talvez devêssemos nos perguntar se a grande questão não estaria na falta de amor. Pois quem ama cuida. Portanto, se não cuida não ama. Ou não cuida por falta de amor?

Se acontecer a campanha, eu já escolhi – dentre tantas ruas que me encantam – uma que eu queria fosse minha. Até o nome dela me emociona, o de um dos piracicabanos notáveis, o professor Joaquim do Marco. Mais do que rua, é um oásis, milagre de sossego, de paz. Vale ingressar, penso eu, em qualquer roteiro turístico. Admito, porém, estar, de entusiasmo, escrevendo besteiras, pois nem sei se é rua particular, se é proibido passar por ela. Sei que vou vê-Ia, encantado com sua beleza.

“Se essa rua fosse minha … “, a Joaquim do Marco, eu a deixaria como está. Em minhas andanças, costumo vê-Ia. Já a vi ao final da madrugada, quase ao alvorecer, entre névoas e iluminada; à noite, com festival de pirilampos e de grilos; durante o dia, ao entardecer, langorosa e pacífica, lá em Vila Rezende, como que plantada num jardim da Baronesa. Atravesso a ponte do Morato, contorno o posto de gasolina, entro pela rua Dona Lídia. Alguns metros depois, à direita, desço pela travessa da Senzala, reminiscência, ao mesmo tempo, de uma cidade escravagista mas, também, libertadora.

Da travessa da Senzala, já se vê a mata esplendorosa, fechada por telas de arame. Por trás da cerca, está um pedaço do paraíso: para alguns, é a “Esterqueira”; para outros, um jardim botânico. A sede da Sedema está lá, plácida. Da travessa da Senzala, já se avista o esplendor da mata, como que um oásis impedido de ser visto. Alguns metros abaixo, o trecho paradisíaco: a rua Joaquim do Marco. Não sei se é particular, mas ficou bloqueada por uma cortina de hibiscos que interrompe à passagem de veículos. Uma escada..ria de madeira, se aberto o portão; conduz ao caminho do Engenho’ Central. E, mais adiante, na tela de arame, há outro portão, com cadeado, o que supõe alguém tenha a chave para abri-Ia. Quem estiver com ela, abre a porta de um paraíso de árvores, indo passear-se por trilhas naturais.

“Se essa rua fosse minha … ” – a Joaquim do Marco, logo abaixo da travessa da Senzala , eu a abriria para o povo passear. É bonita de tirar o fôlego. Bom dia.

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